Total de visualizações de página

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Educação e obsessão espiritual: aceitação e cura

Era quinta-feira à tarde, na angústia pelo fechamento de uma prestação de contas de um projeto de pesquisa, que me desesperava, eu não conseguia parar com o que fazia para pensar na palestra que precisaria ser dada no dia seguinte, durante o evento da Sociedade Médica Espírita de Sergipe.
Estava isolado em casa durante toda a semana trabalhando nesse relatório que me consumia as forças. Estava em jogo muito mais o aspecto emocional que isso denotava do que o fluxo de trabalho em si. Havia mais energia de ansiedade do que trabalho duro no processo. Isso tudo devido à minha pouca maturidade na administração de recursos públicos. O medo de que algo desse errado oprimia-me o coração. Eram muitos documentos e detalhes a considerar.
Meditei várias vezes naquele dia, desde as 5:30 da manhã. Sempre que minha mente se mostrava confusa e minha alma oprimida, parava o trabalho. Após uma breve prece, me colocava a buscar uma conexão com o presente, reformando-me para longe das angústias e dores geradas por mim mesmo.
Senti a presença de entidades trabalhadoras do bem, ajudando-me na resolução das contas.  Emocionado, agradeci ao Pai, reconhecendo minha insignificância pessoal diante da tarefa. Eu era apenas um instrumento encarnado que servia de veículo para que espíritos mais nobres auxiliassem no desenvolvimento da ciência em meu país.
No dia seguinte, quase que vinte e quatro horas depois, eu deveria fazer uma apresentação a um grupo de estudiosos da doutrina espírita, na cidade de Aracaju. Um grupo sério e preparado de espíritas que buscavam compreender e gerir suas atividades profissionais conectando-as com o trabalho confortante do espiritismo.
Mesmo que a contragosto, eu estava atrasado para a preparação da palestra, então parei o trabalho, que enlouquecidamente me dedicava a terminar, tomando-me por uma outra angústia, o pouquíssimo tempo para pensar em uma fala sobre tema tão delicado: O Papel da Educação na Cura da Obsessão Espiritual.
Mais uma vez, coloquei-me sentado, de pernas cruzadas, coluna ereta, com o foco de atenção na respiração: precisava Meditar. No cantinho que preparei com um tecido ao chão e almofadas, concentrei-me na conexão com o universo e com o Deus de amor que em mim habita, assim como em qualquer outro ser humano.
Depois de quase 30 minutos uma mensagem foi despertada nos recônditos do meu inconsciente, remetida pela parte de mim que representava a consciência do meu plano reencarnatório: -Não tem o que temer, querido irmão. És tu, um instrumento escolhido por Deus para divulgação dos ensinamentos do mundo espiritual. Através de ti o Cristo se manifestará. São dele as palavras pronunciadas e as linhas escritas. Cabe a ti, apenas, a disposição para transcrevê-las, além de se mostrar presente nas atividades instrutivas que teus mentores preparam caridosamente para o teu desenvolvimento. Essa preparação, dada pelos cursos, palestras e durante suas leituras, lhe confere conteúdo necessário à utilização dos mentores enviados por Jesus, que proferem ensinamentos em nome do Pai amoroso.
Depois de tal inspiração, levantei-me ainda angustiado, como se eu devesse expressar de dentro de mim uma intensa energia de amor, que ali fora depositada. Sentei-me e escrevi, em 20 minutos, o texto que posteriormente foi organizado em slides para a apresentação ao público espírita.
Cenas com informações provenientes de lembranças sobre cursos e leituras vinham à minha mente quase como um balé. Memórias auditivas e visuais, falas e conceitos que amparavam a temática a ser ensinada, em uma lógica sequencial impressionantemente clara; em alguns momentos até assustadora aos meus olhos, posto a inovação com que os temas eram tratados. Surgiam à minha mente e iam embora à medida em que eram escritas por minhas mãos.
Posteriormente descobri que se tratava do fenômeno mediúnico da captação da oratória descritiva, tão bem descrita pelo espírito Camilo em "Memórias de um Suicida". Produzida pelos mentores, que me transmitiam como em uma sequência de slides, minhas próprias lembranças, organizando em mim algumas informações de maneira sequencial, quase que renovando todo o conhecimento que eu trazia sobre o assunto, colocando-o em novos prismas.
Eu me recusava a acreditar nas relações temáticas propostas, duvidava e ria, amorosamente, do brilhantismo com o qual eu recebia aquela aula que mais tarde deveria retransmitir. Não tenho dúvidas que estive longe de expressar toda a clareza da obra Divina que ali desfilava aos meus olhos, a partir de lembranças despertas em minha mente.
Em lágrimas, terminei o texto, respirei e me coloquei a preparar a apresentação. Mais uma vez estive atento à lógica da estrutura textual e, avaliando positivamente o que fora expresso, coloquei-me a ajeitar detalhes da digitação e a organização dos slides, que por orientação dos mentores deveriam ser o mais simples possível, com fundo branco e letras pretas, de tamanho bem grande.
As questões norteadoras foram-me apresentadas ao final para que minha confiança na mensagem fosse testada, inclusive minha atenção à lógica e à possível veracidade daquilo que eu escrevia.
Fui duvidando do texto, até que, como chave de ouro, as questões foram propostas e fecharam o que estava escrito: 1) qual a relação entre educação e obsessão no desenvolvimento do espírito? 2) qual educação cura a obsessão?
Faltou-me coragem para, no momento da apresentação, explicitar a responsabilidade dos espíritos na construção daquele trabalho, talvez por minha inexperiência no campo mediúnico; ou mesmo pelo orgulho e pela vaidade de alguém que temia passar por ridículo. De qualquer forma, com uma pontinha de insegurança, que começou a me fazer refletir sobre um nervosismo iminente, iniciei a palestra. Antes mesmo que esse nervosismo viesse a me atrapalhar, uma mensagem novamente me foi desperta na consciência: "-lembre-se, você é um instrumento do Cristo e as pessoas merecem essas informações, mesmo que as critiquem e, por ventura, refutem; elas servirão para importantes reflexões".
Portanto, as considerações iniciaram-se a partir das questões propostas e seguidamente uma breve introdução foi apresentada, com ela, toda a discussão previamente preparada em um texto de 10 laudas, que foi construído durante 20 minutos. Esse texto foi reorganizado e encaminhado para uma publicação na revista da Sociedade Médico-Espírita. Uma versão um pouco mais detalhada foi apresentada nos parágrafos seguintes:
Nesta fala buscamos, em primeiro lugar, definir as obsessões e suas tipologias; em segundo, trazemos a noção de “ação persistente do espírito obsessor”, sob o prisma da Programação Neolinguística, através da compreensão do conceito de rapport. Por fim, apresentamos um argumento sobre o rapport entre os espíritos envolvidos no processo obsessivo como possibilidade de elucidação de sombras psicológicas.
A obsessão: conceito e tipologias
Na questão 459 do Livro dos Espíritos, eles dizem que o plano espiritual pode nos influenciar a ponto de nos dirigir (KARDEC, 2011a). Nessa passagem, podemos interpretar que não se discute sobre a qualidade da influência de um espírito sobre outro, se para o bem ou para o mal, mas que todo o empreendimento humano sobre a terra receberá assistência espiritual; seja em ações positivas, para o desenvolvimento da humanidade, com sugestões e apoio dos espíritos superiores; ou mesmo, em atividades de menor nobreza, que estarão sob a ação de espíritos ainda ingênuos e malfazejos.
No livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (KARDEC, 2011b), há uma definição sobre Obsessão Espiritual. Segundo ele, a obsessão
é a ação persistente que um espírito mal exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. (KARDEC, 2011, Cap. 25, Item 81).
Na tentativa de compreendermos os tipos de obsessão, podemos classificá-las de três maneiras:
1.      Conforme a relação estabelecida entre os espíritos envolvidos, podem ser:

·         De desencarnado para desencarnado: quando um espírito escraviza outro, hipnotizando-o e controlando suas ações;
·         De desencarnado para encarnado: quando somos influenciados persistentemente pelos espíritos ao nosso redor;
·         De encarnado para desencarnado: quando exercemos influência sobre aqueles que desencarnaram por força magnética gerada, por exemplo, por pensamentos de posse. Às vezes prendemos junto a nós os entes queridos que desencarnam. Isso ocorre devido a energia magnética que desprendemos egoisticamente, justificando dor, na ação de chorarmos e sofrermos desvairadamente por aqueles que desencarnaram: a) -Meu Deus! Por que levastes fulano? Ah! Minha vida não tem mais sentido. b) -O que será de mim, fulana, sem você? O que será de nossos filhos? Não me abandone!
·         Auto-obsessão: quando o indivíduo cria comportamentos e assume determinadas posturas corporais que limitam suas ações, gerando auto-sabotagem e até mesmo doenças, por conta de culpas pretéritas ou mesmo na tentativa de conseguir atenção daqueles que estão ao seu redor. Há um foco intenso na busca por alimentar o corpo de dor ou o eu inferior. Geralmente, com o tempo, o indivíduo recebe outros espíritos que vibram em conexão com esses comportamentos, contribuindo para o agravamento do quadro;
·       Ovóide: quando espíritos desencarnados estão muito apegados a ideias fixas, por exemplo, de vingança, culpa ou mesmo vinculadas à prazeres compulsivos, como práticas sexuais e dependência a drogas, seus membros periespirituais se atrofiam de maneira que a única parte proeminente do corpo espiritual será o corpo mental, dando ao ser o formato oval;
·       Zooantropia: o indivíduo desencarnado recebe estímulo para a hiperprojeção de instintos animalizados, por força de hipnose, produzida por espíritos que o escravizam, de maneira que assumem formato de animais. O mais clássico é o obsedado assumir o comportamento de lobos (licantropia), contudo, Pinheiro (2013) mostra indivíduos que assumem formato de aracnídeos, serpentes, ratos e morcegos, no caso de obsessões sexuais.
2.                  Conforme a intensidade do controle exercido

·      Simples: quando há uma influência leve de um indivíduo sobre a outra pessoa. Sugestões para que a outra pessoa faça determinadas coisas, como por exemplo: beber, fumar, ser infiel, ou assuma determinados estados psicológicos como de raiva, tristeza etc.

·      Fascinação: quando o obsessor age sobre a vaidade do obsidiado. Lhe sugere poderes, forças, ações e depois o coloca em situações nas quais é ridicularizado. É o caso de médiuns que, por exemplo, acreditam emitir mensagens diretamente do próprio Jesus Cristo. Esses podem estar em processo de fascinação, até porque, provavelmente, Jesus não revelaria sua identidade em uma psicografia, diante de sua humildade, caso acontecesse, posto à improvável possibilidade de espíritos tão densos como nós, termos acesso de comunicação com um espírito puro.

·      Subjugação: quando o espírito obsessor tem total controle das ações daquele que a sofre.
3.             Conforme o motivo da influência exercida, o espírito obsessor pode ser:
·      Consciente do mal que causa: quando age por vingança, por ódio, ou mesmo por diversão, causando inconvenientes e dor nos obsidiados;
·      Inconsciente do mal causado: quando há alguma proximidade ou admiração do espírito obsessor pelo obsedado, de maneira que aquele não queira se desligar desse. Por exemplo, uma mãe que desencarna e insiste em ficar na casa onde estão os filhos, sem perceber que seu desequilíbrio energético pode afetar os indivíduos que ali habitam[1];
·      Associado ou Simbiótico: quando ambos se beneficiam da associação ou simbiose, apesar dos males causados. Um exemplo, pode ser encontrado no livro Sexo E Destino psicografado por Chico Xavier, no qual obsessor e obsedado, compartilham os fluídos do whisky bebericado pelo encarnado. Ao mesmo tempo, o espírito cuida para que este seja protegido de acidentes, de maneira que continue servindo como um bom “copo”, material.
As classificações aqui apresentadas nos possibilitam melhor compreensão sobre as formas com as quais as obsessões podem assumir papeis na vida dos indivíduos, estando eles encarnados ou desencarnados.
Podemos compreender, portanto, que o obsessor só consegue agir, caso encontre no obsedado (aquele que sofre a obsessão) um ponto de ligação, uma sombra psicológica. O obsessor funciona como um amplificador daquilo que possuímos dentro de nós, escondido em nossas sombras. Nossa mesquinhes, nosso egoísmo, nosso orgulho, nossa soberba, nossa culpa, etc, são plugs vulneráveis para a conexão de obsessores. Como apresentou Schubert (1982, p. 9) “[...] sabemos, através dos ensinamentos da Doutrina Espírita, que a obsessão existe por estarmos ainda eivados de sombras”.
A sombra, construída conceitualmente por Carl Jung, perde sua força de opressão quando integrada ao ser. Se minha sombra é a covardia, quando a integro ela perde a força e pode se tornar cautela; se é a feminilidade, pode se tornar sensibilidade; se o apego, pode se tornar cuidado. Ela carrega
Um determinado aspecto de cada um que destrói os relacionamentos, mata o espírito e nos impede de realizar nossos sonhos. [...] Contém todas as nossas facetas que tentamos esconder ou negar; os aspectos sombrios que julgamos não serem aceitáveis para a família, para os amigos e, mais importante, para nós mesmos. [...] Nossas sombras são detentoras da essência daquilo que somos, guardam os nossos bens mais preciosos. [...] Os sentimentos que abafamos estão ansiosos para se integrar a nós mesmos. Eles são prejudiciais apenas quando reprimidos (FORD, 2013, pp. 19 – 21).
Se por um lado o obsessor nos causa dores e sofrimento à medida que amplifica nossas sombras, por outro, encontramos neles uma ótima oportunidade para encará-las de frente, promovendo um processo de educação pela reforma íntima.
A Educação e a Programação Neurolinguística do Ser
A educação se expressa em atividades de relação. Ela pode ser formal, com um objetivo de ensino-aprendizagem previamente pensado, conforme vivida nas escolas. Ou, gerando aprendizados mútuos, entre humanos que interagem no dia a dia, como acontece com a educação vivida no contexto das famílias e grupos sociais.
Relação é algo natural e necessário ao ser humano. Para Santo Agostinho, por exemplo, a pessoa é uma relação. Sou uma pessoa porque sou pai, sou filho, sou irmão, sou mãe. Cada individualidade, portanto, é um nó que agrupa os diversos processos de relação.
Do ponto de vista do desenvolvimento espiritual, a educação inicia-se a partir de nossa criação, como espíritos desprovidos de discernimento. Então, caminhamos rumo ao desenvolvimento, em busca da purificação espiritual (KARDEC, 2011a).
Nesse processo de amplo ensino-aprendizagem do ser, corpo e mente constituem-se um conjunto indissociável. As leituras de diversas obras espíritas e científicas nos mostram que isso é fato tanto no plano terreno, no que se refere à indissociação entre corpo material e a mente (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995); como espiritual, no que se refere ao corpo perispiritual (KARDEC, 1999).
As marcas dos sentimentos positivos e negativos ficam registradas no perispírito do ser vivente, que está em processo de evolução. Alterações no estado mental afetam a estrutura corpórea e alterações corpóreas afetam o estado mental, tanto neste quanto no plano espiritual. Conforme apresentado na Gênese espírita, “[...] O pensamento cria imagens fluídicas, e se reflete no envoltório perispiritual como num espelho; o pensamento toma corpo e aí se fotografa de alguma forma [...]” (KARDEC, 1999, p. 240, Cap. 14, item 15).
Partindo desse princípio, da indissociação entre corpo/mente/espírito, podemos compreender, por exemplo, que uma depressão, ou qualquer outra doença, podem ser criadas pelo indivíduo. Da mesma forma, a alegria, como possibilidade cotidiana e de essência, pode trazer benefícios energéticos de cura e de desenvolvimento ao corpo físico (ROBBINS, 2003; MOREIRA; CRUZ, 2013).
Dependendo de como eu me posto ou respiro, posso alterar estados de consciência, bem como assumir emoções e sentimentos. Da mesma forma, qualquer notícia que me cause desequilíbrio, pode afetar imediatamente minha respiração e postura (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995). A respiração é uma das ferramentas mais importantes na ligação entre estado emocional/espiritual e a aparelhagem corporal terrena. Não por acaso, diferentes tipos de terapias meditativas milenares baseiam-se na observação da respiração.
O mais interessante é que indivíduos em harmonia, uns com os outros, respiram no mesmo ritmo e profundidade. Não apenas tendem a imitar a respiração construindo uma vibração semelhante, como também se espelham em comportamentos e posturas corporais, em casos nos quais buscam interação (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995).
Assim, caminhamos para a ideia da Programação Neurolinguística de que a maior parte da comunicação entre os seres humanos é feita pela linguagem corporal (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995).
Somos tão ligados uns aos outros que nossas capacidades nos permitem sofrer juntos - eis o significado da compaixão[2]. Quando observamos um ser humano ferido, tendemos imediatamente a manifestar emoções dolorosas. Da mesma forma, a presença de um irmão sereno, pacífico e harmonizado, com propósitos Divinos, nos leva a responder com um grande e delicioso movimento de relaxamento. Essas relações estão regidas pelo rapport - uma palavra utilizada para descrever esse estado de relação, mais ou menos profunda, entre os humanos, promovendo-lhes estados vibracionais parecidos, em situações nas quais querem interagir.
"-Acompanhe, acompanhe e conduza", é o que dizia meu professor no curso Practitioner em de PNL[3], quando tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre essa área. Se acompanhamos os movimentos, o tom de voz e a respiração daquele que está interagindo conosco, de maneira natural, mas consciente, temos grande chance de estabelecermos uma ligação. À medida que a ligação emocional for efetuada, mudando sutilmente nossa postura corporal, tom de voz e/ou respiração, nos surpreenderemos com o espelhamento de nosso interlocutor. Ainda, em rapport, podemos inclusive propor induções hipnóticas ao interlocutor que estará aberto a depositar em nós sua confiança, seguindo-nos as instruções. Da mesma forma agem alguns obsessores, através da hipnose, induzindo suas vítimas às mais torpes situações.
O rapport é uma característica natural do ser humano e permite através da aproximação das linguagens corporais, também a aproximação dos estados emocionais de dois ou mais sujeitos, está registrado em nossa biologia, pelo que os cientistas chamam de o neurônio espelho. Conforme Lameira, Gawryszewski e Pereira Jr., 2006), trata-se de um complexo neuronal que nos permite a conexão natural, normalmente inconsciente, uns com os outros, gerando estados vibracionais que nos vinculam.
Essa vinculação é um dos motivos que nos fazem evoluir coletivamente, ou mesmo estacionar coletivamente, posto que estados gerais de otimismo e pessimismo, de serenidade e de fúria, podem ser difundidos e compartilhados. Segundo Schubert (1981) só entramos em ligação com o sentimento alheio se em nós o mesmo estado emocional se fizer presente, em mesma sintonia de equilíbrio ou de desequilíbrio.
Se apenas consigo expressar o que tenho dentro de mim, só consigo oferecer ao outro aquilo que trago comigo e só recebo do outro aquilo que para mim faz sentido, ou seja, algo que também há em mim, a isso chamamos projeção. As projeções são importantes indicadores sobre as sombras que possuímos. Se eu pensar sobre as coisas que mais amo e mais odeio nos outros, vou conseguir descobrir momentos em minha história em que já apresentei essas mesmas características. Segundo Ford (2013) um bom exercício é aceitar essas características em mim, perguntando à uma partezinha lá dentro do meu ser, o que de positivo cada um desses aspectos trouxe à minha vida.
Tudo isso que viemos dizendo, de que há uma ligação entre os humanos, e que ela só existe por sentimentos e emoções compartilhadas, significa que as perguntas e respostas estão todas em nós, como a centelha Divina que constitui nosso ser. Imagine que uma árvore é um ser que ainda não acessou a energia da raiva dentro de si, portanto jamais se conectará à raiva humana.
Quando espiritualmente imaturos, tendemos a achar que a fonte de nossa alegria ou de nossa tristeza está no outro. Podemos dizer, sob força do ego:
-     Fulano me machucou. Fulana só me faz raiva.
Contudo, a pergunta deveria ser: -“o que eu tenho em mim para que essa relação me desperte tais sentimentos e como devo direciona-los?”
Essa clareza, de que todas as responsabilidades do meu destino estão em mim, aparece à medida que expando a minha consciência para criar novos comportamentos, diminuindo e até mesmo deixando de me ligar àqueles menos dignos, posto que me mostro capaz de acolher as minhas próprias sombras com amorosidade, integrando-as em mim, de maneira produtiva.
Pequenos passos para o autoconhecimento
Como se dá esse processo de expansão da consciência na relação com os espíritos? Apresento duas opções, certamente correndo no erro de demasiada simplificação. Pela ligação: 1) amorosa ou 2) dolorosa.
No primeiro aspecto:  nos conectamos ao comportamento dos espíritos mais nobres, na construção de sentimentos mais puros, sentindo-nos amados por eles e por seu testemunho de amor a todos nós. Essa ligação se dará por ferramentas psicológicas amparadas em valores pessoais firmes de pertença coletiva ao grupo dos filhos de um mesmo Pai.
À medida que desenvolvemos esses valores, em determinados aspectos de nossa vida, também somos imitados pelos nossos irmãos, mesmo ainda estando nós distantes da purificação completa. Percebemos que não precisamos ser santos para identificarmos em nós possibilidades libertadoras, luzes e capacidades de desenvolvimento. Assim, focamos em nossas qualidades, ocupando-nos de expandi-las e direciona-las cada vez melhor ao bem pessoal e, consequentemente coletivo, posto que pessoa é relação.
No segundo aspecto, da dor: estabelecemos parcerias através de comportamentos e sentimentos menos dignos com cúmplices de graus de desenvolvimento tão rudimentar quanto o nosso. Oferecemos-lhes ou aceitamos deles, objetos afetivos menos nobres que tendem a nos vincular a necessidades materiais, como os de:  ódio, luxúria, avareza, medo, baixa autoestima.
É importante nos atentar que a ligação obsessiva pode se iniciar por iniciativa tanto do outro, como de nós mesmos, até porque ambos apresentam os mesmos desequilíbrios emocionais marcados em seu perispírito. Esse outro pode ser tanto um indivíduo encarnado quanto um desencarnado. No entanto, cabe a nós e não ao outro, a iniciativa de quebrar essa relação ou conduzi-la para uma ligação que se transforme em frutos positivos.
Essas relações dolorosas geralmente nos servem para enxergarmos nossas sombras, ou seja, acessar crenças, valores e comportamentos que queremos desesperadamente esconder ou que por força de nosso orgulho nem se quer percebemos que estão em nós.
O grande primeiro passo é reconhecermos a sombra que se manifesta nas relações com o obsessor, buscando compreendê-la e redirecioná-la. É importante que aceitemos a sombra como algo que nos é importante para a evolução, o que pode ser doloroso, mas, também um grande alívio.
As reflexões podem nos ajudar a transmutar as sombras. Devemos nos perguntar: o que há em mim para que na relação com aquela pessoa eu tenha me deixado despertar esse sentimento? Assim, o que poderia ser inveja, pode se tornar admiração. O que poderia ser ambição, torna-se significado e assim por diante. Ao ser compreendida e aceita, a energia da sombra perde sua intensidade e passa a ser usada para o bem (FORD, 2013). Assim, os obsessores perdem o ponto de conexão conosco.
O redirecionamento dessas energias geradas nas relações de dor, podem ser muito positivas para nosso desenvolvimento, desde que acolhamos as sombras ou sentimentos menos nobres que nos tem movido, aprendendo o que eles nos têm a dizer, transformando-os em energia para o crescimento. Quantos casos de pessoas que passaram enormes dificuldades e se tornaram exemplos de luz?
A busca pela consolação é o maior dos aprendizados. É o autoconhecimento que gera autoamor e autoaceitação, consequentemente aceitação e amor aos outros. A consolação vem da compreensão, mesmo que inconsciente, de que a dor é minha. Não é algo que o outro me causou, é algo que há em mim, que me faz refletir, me mover, despertar o autoamor. Para Moreira; Cruz (2013) o amor que resgata a dignidade humana  é uma fonte inesgotável  de cura e nos acorda para o fato de que somos importantes simplesmente por sermos filhos de Deus.
Queremos mostrar, portanto, que a obsessão é uma forma de relação, como a educação. Ela nos desperta para as nossas sombras, com o propósito de fazer com que cada um se ligue consigo. Um indivíduo espelha o outro (obsessor e obsidiado), para que descubram dentro de si o que precisa ser resolvido, mas que não lhes é aparente. É a educação pela dor.
Uma relação dolorosa, de almas ainda em desequilíbrio, que só existe por um propósito, de nos libertar de nossas sombras. E, deixará de existir quando precisarmos apenas da educação pelo amor, aquela focada no autoconhecimento. Portanto, a educação que cura a obsessão é a do autoconhecimento. Ele nos ensina que devemos ser gratos à essas interações, mesmo que intempestivas, posto que nada escapa ao plano Divino e tudo que por Ele é permitido tem um propósito fundamental: o desenvolvimento do espírito humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FORD, Debbie. O lado sombrio dos buscadores da luz: recupere seu poder, criatividade e confiança, e realize os seus sonhos. Tradução: Rosane Albert. 6ª reimpressão. São Paulo: Cultrix, 2013.
KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e a predições segundo o espiritismo. Tradução de Victor Tolendal Pacheco; 1ª Ed. São Paulo: LAKE, 1999.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos; Tradução: Guilon Ribeiro. 2 ed. São José do Rio Preto: Virtue Participações LTDA, 2011a
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritísmo; Tradução: Guilon Ribeiro. 2 ed. São José do Rio Preto: Virtue Participações LTDA, 2011b
LAMEIRA, Allan Pablo; GAWRYSZEWSKI, Luiz de Gonzaga; PEREIRA JR., Antônio. Neurônios espelho. Psicol. USP,  São Paulo ,  v. 17, n. 4, p. 123-133,   2006 .   Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642006000400007&lng=en&nr
m=iso>. access on  14  Sept.  2015. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642006000400007.
MOREIRA, Andrey; CRUZ, Dias da (espírito psicografado). Autoamor e outras potências da alma. Belo Horizonte: Editora Ame, 2013.
O’CONNOR, Joseph; SEYMOUR, J. Introdução à programação neolinguística: como entender e influenciar as pessoas. 7 ed. São Paulo: Summus, 1995.
PEREIRA, Yvone do Amaral. Memórias de um Suicida, (ditado pelo espírito de Camilo Cândido Botelho). Digitalizada por L. Neilmoris. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.
PINHEIRO, Luiz Gonzaga. Obsessão sexual: uma porta para a loucura. 4ª reimpressão. Capivari, SP: EME, 2013.
SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão e desobsessão. Brasília: Feb, 1982.







[1] Veja um exemplo no Livro A Casa do Escritor, psicografado por Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho;
[2] Segundo Alan Ahlmar, headtrainer de PNL: compaixão poderia ser definida como o mais profundo rapport, ou, o que ele chamou em 2014, durante o curso de formação em Advanced Practitioner do INEXH, um Megarapport.
[3] Neil Negrelli, do INEXH

quarta-feira, 14 de maio de 2014

REENCARNAÇÃO E DESPERTAR: POR UMA CONSCIÊNCIA DE ETERNIDADE (PARTE II)

Após ser colocada na carruagem policial, aquela jovem mulher via seus filhos cada vez mais distantes, pela pequena janela de grades. Os pequeninos, com dois e quatro anos, não tinham a menor noção do que acontecia com sua mãe. Enquanto ela os via distanciarem-se, ficando naquele beco que ela tanto amava, ao pé da ladeira, entre o passar de galinhas e cachorros, resignava-se com uma tristeza indescritível, imaginando que sua história humana, acabaria ali.
Aquela mulher não tinha ideia do que lhe aguardava, mas sabia que era a última imagem que teria dos seus pequenos. Um grito lhe custava a sair, engasgado no estado de choque que lhe tomava. Antes que a dor mais lancinante lhe dominasse o ser, na vontade de gritar aos pequenos sobre quanto os amava, manifestando todo o seu desespero, recobrou-se com a serenidade daqueles que se abeiram da morte inevitável.
Dizia então, a si mesma, abafando o grito de dor:
-Não! Não os lançarei ao desespero, eles pouco compreendem sobre a vida. Aos poucos, cairão nos braços da resignação e em seguida terão com a superação.
Ousadia e força eram os temperos daquela espanhola, de longos e ondulados cabelos negros, esbelta e cheia de vida. Era uma senhora que não tinha medo de romper com os paradigmas sociais; artista completa, dizia o que lhe convinha com inteligência, ao badalar suas castanholas com altivez ou no riscar dos pincéis, sobre suas telas cheias de vitalidade e confiança. Contudo, por vezes exagerava em seus posicionamentos militantes e feministas, prejudicando-se no campo da sexualidade, pelo exacerbado apelo à sensualidade e ao sexo.
Ao mesmo tempo, vivia intensamente suas paixões, sem criar mentiras ou hipocrisia aos olhos de quem quer que fosse, posto que para si, não fazia nada além de amar.
Vivia como toda mulher deveria ter o direito de ser, naquele mundo onde os homens estavam cheios de possibilidades e as mulheres cobertas por um véu de vergonha e medo, que as colocava no submundo do prazer interdito, por vezes, maldito e sempre; sempre inaudito.
Foi acorrentada naquele porão fétido, cheio de pedra e ferrugem. Aterrorizada pelos gemidos femininos que lhe entranhavam os ouvidos, reconhecia-se sob a tutela da Santa Inquisição. Grunhia de revolta, cega de ódio daqueles que ali a colocaram.
Essa força duraria pouco tempo. Essa mulher, rapidamente descobriria que anular-se completamente, naquele lugar, era uma moeda de ouro.
Receber um mínimo de gentileza, mesmo que um olhar de compaixão, valia muito, para quem estava completamente à mercê dos homens que usavam o nome do Santíssimo, para cobrarem aos outros um comportamento sagrado que eles próprios recusavam a buscar dentro das próprias sombras.
Anular-se significava agradecer pelo benefício do sofrimento que proporcionava a sua própria purificação. Anular-se, significava apanhar sem despertar o ódio. Era transformar-se no objeto de um trabalho. Um brinquedo, aos poucos estraçalhado. Sem ódio, pela fé, pela cega e nebulosa fé, imposta pela Lei.
Na antiga Casa Régia de Murcia, projetada pelo meu ancestral Pedro Pagan, que se tornou o posto da Santa Inquisição, nossa amiga duraria consciente por poucos minutos.
Após o primeiro golpe, sua delicadeza feminina se curvou, perdida. Depois disso, entre acordada e desfalecida, pouco lembraria. Quanto tempo passou ali? Qual o propósito de sua estada? Que horrores foram vividos?
Com o tempo, as dores eram anestesiadas.
Um cadáver que espargia vida, entre hematomas de pancadas e o nojo do esperma que lhe deixavam nas entranhas, era uma descrição amena de uma cena sobre a incrível capacidade humana de suportar.
Uma coisa, ela não esqueceria jamais, nem com trezentos anos. A cena final.

---


Nos dias atuais, Alma seguia em seu carro pelas ruas da linda Aracaju, se alegrava com aqueles que caminhavam pela avenida 13, apreciando o mangue e a maré, ao seu lado direito, banhadas pelo radiante dia de sol.
Por dentro, uma angústia inexplicável lhe consumia. De que fonte bebera aquele sofrimento que internamente insistia em contorcer-lhe o peito? De certa forma, acreditava que o simples fato de seguir para seu encontro semanal com a Dra. Olga, sua terapeuta, lhe bastasse para começar a mobilizar suas angústias.
Ao aportar na agradável clínica, repleta de entidades beneméritas encarnadas e desencarnadas, procedentes das mais diversas etnias, que enchiam o plano espiritual com nuvens carinhosas que se abriam para a passagem de clarões de luminosidade curativa, Alma mal cumprimentou as pessoas sorridentes que pelos corredores conversavam, subindo as escadas com rapidez.
Entrou na sala agitado, sentia-se como mergulhado em um mar de cogitações que lhe abafavam a respiração. Sentando-se de frente com Olga, que além de grande terapeuta transpessoal era também psiquiatra, desabafou:
- Quase não vinha para cá hoje. Apesar de perceber-me bastante angustiado, sinto como se estivesse girando em um circulo vicioso de cenas cotidianas que se repetem, mas não atacam realmente a fonte da dor que carrego.
Olga, com sua experiência de mais de vinte anos de trabalho, respondeu:
-Então, deite aqui (apontando uma cama que se localizava na parte de trás da sala, meio que ao lado da cadeira dela), vamos entender o que te aflige.
Mal deitou-se, e sem que qualquer técnica de respiração fosse aplicada (como em outras vezes teria acontecido) devido ao desdobramento de seu espírito, Alma sentiu suas pálpebras fecharem como que com várias dobras e, em seu peito, aquela angústia parecia explodir, como se realmente ele mergulhasse em um caminho sem volta, no enfrentamento da real causa daquele abatimento que lhe havia tomado.
- Um grito de desespero e dor fez-se estremecer nas redondezas... Um grito de apelo, de amor, de premonição quanto ao mal que havia de chegar, ou que teria acontecido. Algo que parecia abafado há séculos. Um grito acompanhado de socos no colchão, de músculos enrijecidos, suor e lágrimas.
Embora tivesse clareza que estava ali, no consultório, amparado pela terapeuta, imagens de algo que acontecera há muitos séculos atrás, começaram a se constituir em sua mente. Alma tinha chegado ao consultório já em situação de regresso a memórias condensadas, que insistiam em persegui-lo.
Seus fantasmas de vidas passadas lhe perturbavam o presente. Era o momento de enfrentar. Estava munido com os recursos físicos e espirituais que poderiam ser úteis. 
Banhado de suor, como se realmente estivesse entrado debaixo de um chuveiro, relatava as cenas que sua memória parecia expurgar.
Via a carruagem policial, as crianças deixadas para trás, os sentimentos de resignação, choque, ódio; que a cada momento lhe tomavam conta, até visualizar a cena final, daquela vida, quando desencarnou.

---

Deitada em algo que parecia uma cama de pedra, acorrentada, e iluminada por tochas que eram postas nas paredes, vislumbrava entre alucinações e realidade a figura do seu torturador.
Como um animal, sem qualquer perspectiva humana, apenas a dor lascerante dos ossos quebrados e das deformações calosas em mãos e pés, sem forças para mover-se, ou mesmo gritar, tinha alguns minutos diários do que lhe parecia afeto, quando o mesmo homem que lhe torturava durante o dia, vinha-lhe à noite, oferecer carinho enquanto a abusava sexualmente.
Carinho, que se concretizava por um toque, mínimo, misturado entre feições de nojo e desejo. Mas, um toque, que pelo menos naquele momento não lhe causava dor.
-Como pode doutora?
Exclamava alma aos prantos, sem compreender o que se passara.
-Alguém que lhe tortura durante o dia, ainda lhe estupra, à noite. E, você, ali, desgraçada de toda a sua humanidade, descobre nas atitudes de um monstro torturador, algo que chega mais próximo ao apelo que sua carência necessita. Uma esmola de afeto, representada pelo estupro diário, daquele que lhe quebra em pancadas. Como pode um ser? Um hu-ma-no passar por isso? Nem bicho!
As lembranças continuavam e Alma via-se no lugar daquela mulher, esvaindo suas últimas energias, sobre aquela pedra, que chamavam de cama.
Olhando para o lado, vê aquele homem, sentado em uma cadeira, orando por sua alma, apresentava uma fisionomia indecifrável, deixando que uma lágrima caísse.
Alma, praticamente sem forças, ouve a intervenção de Olga, sua terapeuta:
-Você consegue identificar essa pessoa na figura de alguém, hoje em dia?
- Não, não consigo. Não consigo ver-lhe em qualquer rosto.
A doutora retoma: -O que você aprendeu com isso?
-Sou um pedaço de carne imprestável, disse Alma.
Outra intervenção: - o que você aprendeu positivamente com isso?
E, então, Alma, retomando vagarosamente a postura no tempo presente, responde: -Ele me amava. Mas, cumpria com o seu trabalho. Ele precisava fazer e não tinha escolha.
E Olga rebateu: - Então, em outras palavras: "eu entendo que algumas pessoas assumem determinadas atitudes devido às circunstâncias. Compreendendo isso, eu perdoo, mesmo que essas atitudes me façam mal”. -Repita comigo.
Abrindo os olhos, com uma imensa sensação de alívio, banhado de suor e lágrimas, Alma repete, como um mantra que certamente lhe mudou a vida: - eu entendo que algumas pessoas assumem determinadas atitudes devido às circunstâncias. Compreendendo isso, eu perdoo, mesmo que essas atitudes me façam mal.
Extremamente agradecido, um pouco envergonhado de sair naquele estado, todo descabelado, parecendo que se tinha urinado, de tanto suor, Alma vai embora.
Uma imensa sensação de felicidade lhe toma conta de todo o ser. Uma felicidade que vem do espírito aliviado. Uma felicidade que está longe de ser aquela, completa, oferecida no paraíso, mas como uma faísca de luz, parecia um infinito.
-Realmente, o paraíso é um estado de consciência! Pensava Alma, consigo.
Ao iniciar a viagem de volta para casa, quando manobrava o carro, Alma recobrava a última imagem da regressão que lhe acometera ainda há instantes. A lembrança da face do torturador. Finalmente, Alma o reconhecia resignado, como alguém que lhe é muito próximo, nos tempos atuais.
Alma o reconhecia na figura de seu pai, da atual encarnação. Um homem que sempre lhe tratou com os mimos mais preciosos e a natureza mais gentil e amável do mundo, mas de quem o nosso personagem parecia sempre esperar algo de mal, como se desejasse, sem qualquer fundamento aparente, que ele caísse em deslize.
É incrível o significado Divino da família terrena e a importância de nos esquecermos do passado na grande parte das vezes. Alma precisava daquela revelação para tornar profundo o amor que devotava por seu pai, ainda, apenas no plano do respeito.
Aquele mantra lhe acompanharia em todos os momentos de sua vida. Um mantra de resignação, de afeto e de perdão.
Alma buscou refletir sobre o acontecido e foi atrás de textos que pudessem lhe amparar na resolução das dúvidas crescentes sobre o que se passou. Sabia que se tratava de uma imensa catarse que lhe trouxera paz espiritual. Mas, quais as suas bases?
Encontrou nos trabalhos do psiquiatra Dr. Yan Stevenson, a descrição de mais de 600 casos de pessoas que manifestavam lembranças que sugeriam reencarnação. Crianças que se diziam pais dos seus pais, que sabiam nomes de animais domésticos e apelidos que os próprios pais nunca lhes teriam contado. Lembranças geralmente acompanhadas de marcas de nascença em pontos relacionados com aqueles do tipo do desencarno recente. Pesquisas de cunho científico, que remetiam a reflexões profundas.
Um dos argumentos do Dr. Stevenson, que foi profundo para Alma, tinha haver com a própria concepção de memória. Ele questiona, em palavras parecidas com essas:
-o que nos faz ter a certeza de passamos há poucos minutos por uma rua determinada, ou que no dia anterior conversamos com alguém, senão as lembranças? Então, porque não aceitarmos que as lembranças que manifestamos sobre acontecimentos de séculos atrás são consideráveis?
Como é abençoado o véu do esquecimento. Através dele o Deus nos permite reencarnar junto daqueles que foram nossas vítimas ou algozes de outrora.
Se, a família espiritual é recheada de espíritos afins, que se buscam e se amam, ajudando-se incessantemente. Na carnal, nem sempre estamos com os nossos entes espiritualmente mais queridos. No entanto, trata-se da mais bela chance de perdoarmos e sermos perdoados.
Há dores que ficam condensadas em nosso espírito. Muitas vezes, durante séculos e séculos, as mágoas se perpetuam. Em algum momento, precisam ser acessadas nos arquivos da memória, para somente assim, gerarem libertação. Uma libertação que fortalece o indivíduo ao perdão, que amplia as possibilidades da vida criativa e faz crescer.
Alma sou eu.
Reencarnado em missão de prova junto ao meu pai da atual existência, antigo torturador que nesta vida se mostra renovado, mas que teria uma enorme chance de me rejeitar por eu ser um espírito de forte energia feminina em corpo masculino (transgenero). 
Meu Pai, que tem superado brilhantemente sua prova, e eu, que tenho conseguido com grande poder de reflexão ocasionado por minha condição compreender os mais profundos meandros de minha natureza sexual, buscamos elementos para a elaboração da cura de nossas falhas morais no respeito mútuo dentro da mesma família nesta existência.
Como são lindos os caminhos preparados pelo Pai altíssimo! Sejamos gratos a todo o momento pelas possibilidades de crescimento que esta escola chamada planeta Terra tem nos proporcionado à luz dos ensinamentos de Jesus.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

REENCARNAÇÃO E DESPERTAR: POR UMA CONSCIENCIA DE ETERNIDADE (PARTE I)

Era o ano de 2007, Alma acordou tarde, umas 10 horas da manhã. Estava na casa dos seus pais onde dormia no quarto da frente. Esse cômodo recebia a luz do poste público à noite e, também o sol da manhã. Era o quarto mais iluminado da casa. Nosso protagonista, que tinha tanto medo do escuro, sentia-se confortado por dormir lá.
Ao fundo, ele escutava os hinos da igreja evangélica vizinha, Adventista do Sétimo dia. Lindos cânticos! Muita afinação e volume sóbrio. Era sempre um prazer acordar com aquela alegria aos sábados de louvor a Deus.
Tenho ouvido de uma terra linda, encantada
De um lugar onde a felicidade é total
Os meus olhos já divisam, não tão distante
Meus ouvidos já escutam sons divinais
Tão cansado estou da vida aqui deste lado
E meus braços quase já não podem remar
Calejados e feridos por tantos dias
Querem bálsamo naquele porto encontrar

(Coro)
Além do rio existe um lugar pra mim
Além do rio existe Paz
Além do rio a vida não terá mais fim
Com o meu Jesus irei morar

Tenho já sonhado com aquelas moradas
Que olho algum, aqui não viu, e nunca verá
Tem beleza incapaz de ser comparada
Pois a glória do Senhor presente está
Muito mais bonito que o Sol no poente
Ou a gota d'água em prisma, como cristal
É o encontro de irmãos de fé redimidos
Compensou viver, lutar, vencer afinal!

(Coro)
Além do rio existe um lugar pra mim
Além do rio existe Paz
Além do rio a vida não terá mais fim
Com o meu Jesus irei morar
(Além do Rio - composição Jader Dornele Santos)
A tia paterna de Alma, Rita, e sua filha, Lucilene, estavam na varanda em uma animada conversa com os pais do nosso amigo dorminhoco.
Era uma contenda típica daquelas frequentemente travadas pelos descendentes de europeus, tidos de sangue quente, reunidos naquela família. Emanoel, neto de espanhóis, da região de Múrcia e Célia, filha de uma italiana forte de olho azul, traziam para a criação de Alma e Angela, seus filhos, um misto de cultura europeia e costumes locais.
No diálogo, travado por descendentes dessa cultura, quatro indivíduos são capazes de fazer uma verdadeira algazarra, sentados uns de frente para os outros. Quatro pessoas poderiam estabelecer conversas cruzadas e diferentes, ao mesmo tempo, com muita intensidade sonora. Gritavam mesmo! Sempre com muita ênfase e teimosia; quase dando a entender, aos desavisados, que se tratava de uma briga, dado ao calor dos argumentos.
Apesar de gostar de falar muito, Alma sempre foi de falar baixo e evitar qualquer embate. Ainda deitado na cama, pensou:
- Eu não devo pertencer a esta família. Acho que reencarnei aqui por acaso ou talvez seja adotivo, como minha irmã.
Antes mesmo de conseguir concluir esse raciocínio, foi tomado por outro pensamento, muito forte. Sem entender do que se tratava aquilo, pensou em terceira pessoa, uma sensação que parecia mais um pequeno choque elétrico que lhe tomava a consciência:
- Você é a vó Carmem.
Alma achou estranho aquilo, depois entendeu que foi a mensagem mediúnica mais clara que lhe havia sido emitida, até então.
A vó Carmen havia desencarnado dezessete anos antes do nascimento dele, justamente no ano em que os pais de Alma casaram-se. Precisamente, ela desencarnou na mesma semana do casamento dos pais de Alma. Ele nunca a conheceu. Além disso, ele pouco sabia dela, com exceção de uma pequena foto que ficava exposta na estante da sala, em um porta-retratos minúsculo.
Por essa foto, Alma sempre se mostrou interessado. Sabia que a avó havia desencarnado com problemas neurológicos, parecidos com sintomas de esquizofrenia. Era trabalhadora incansável, portadora de um coração imenso e caridoso, uma mediunidade desequilibrada e forte magnetismo. Além disso, pouco se falava sobre ela.
Ao levantar, ainda meio descabelado e com os olhos um pouco inchados devido à insônia que o havia atormentado durante a maior parte da noite, Alma foi ter com seus familiares na varanda.
Sentou-se em uma das cadeiras de fio, que estavam dispostas de modo a poderem tomar um banho de sol, enquanto avistavam o tanque de lavar roupas ao lado, onde a mãe de Alma colocava algumas mudas de roupa em molho.
O quintal, cheio de árvores, ora os reverenciava com uma sombra refrescante ora com o sol acolhedor, devido à brisa leve que soprava e abanava as folhas dos coqueiros e do ipê florido.
Ao fundo, ainda ouviam o som das canções harmônicas do coral Adventista, que na igreja vizinha, faziam louvores ao Pai Celestial.
O papo, que corria mais calmo considerando o clima de acolhida que a música evangélica gerava, rumou para as experiências da tia Rita e da prima, na reunião mediúnica do Centro Espírita que frequentavam no Estado do Paraná.
A prima Lucilene disse à mãe de Alma: 
- Ai tia, estivemos no Centro Espírita semana passada e o vô Antônio nos deixou uma linda mensagem. Ao terminar, ele disse: - um beijo e um abraço para a minha filha e a minha neta que estão aqui.
Emanoel ficou bem emocionado, ao ouvir que o pai dele estava tão bem e tinha uma missão tão importante no plano espiritual. Apesar dele e Célia serem católicos, nunca desacreditaram nas mensagens dos irmãos queridos, desencarnados.
Alma, que ouvia tudo calado, bastante incomodado, completou:
-Vocês falaram do vô, falaram do tio, que de vez em quando aparecem para deixar mensagens. Mas, nunca falam da vó. E a vó Carmen? Ela não vem ao Centro? Será que já reencarnou?
Então, por incrível que pareça, toda a espanholada ficou em silêncio. Milagre! A prima, olhando para a tia, recebeu uma assertiva com a cabeça, representando a confirmação de que poderia falar sobre esse assunto que parecia tão delicado. Era estranho todo esse silêncio ao redor da história da avó paterna.
Olhando no fundo dos olhos de Alma, com um imenso sorriso no rosto, parecendo banhada por uma luz de ternura e afeto, a prima falou:
- Nós achamos que a vó Carmen é você.
Ao mesmo tempo em que era tomado de uma imensa angústia e sufocamento, pelo choro que parecia não hesitar em vir, Alma ouviu sua mãe acrescentar:
-Você é mesmo muito parecido com a vó: calmo, quieto.
Tia Rita, com outro mais belo sorriso, falando enquanto ria, expressando toda sua terna simpatia naqueles verdes olhos que brilhavam, explicou:
-Olha, ninguém veio dizer não. Mas eu não tenho dúvidas.
-Três anos depois de seus pais adotarem sua irmã, quando faziam dezessete anos de casados, se conformaram que não teriam outro filho. No entanto, em uma destas noites de sono agitado, vi a minha mãe, que já tinha morrido, dizendo:
-Já terminei, aqui em Londrina, com vocês meninas. Agora vou ficar com seus irmãos, lá no oeste. Vou acompanhar um cavalo e despertarei com os meninos.
Suspirando, como se visse a imagem da mãe que tanto amava e que tão cedo a deixara, ainda na adolescência, tia Rita terminou:
- No dia seguinte ao sonho sua mãe ligou com uma bela notícia que nos encantou o coração. Ela anunciou a sua chegada; um filho tão esperado, que regressara a casa do mano (apelido dado a Emanoel) o caçula dos meninos.
Não aguentando mais manter a cara de paisagem que havia aprendido nas pesquisas com entrevistas, Alma saiu, sufocado pelo orgulho e pela dúvida. Lembrou-se da mensagem que havia recebido há poucos minutos. Trancou-se no banheiro onde tomou um dos banhos mais confusos da sua vida.
Chorou copiosamente e despertou uma curiosidade esfomeada sobre a espiritualidade até ali abafada pela explicação materialista que tinha construído na academia, bem como pela exclusão que sentira, dentro da igreja católica, diante da consciência de sua sexualidade diferente.
Será que recebia uma revelação sobre a sua última encarnação? Ou aquilo tudo seria apenas um enorme acaso, uma coincidência?
Pensando e chorando, Alma encontrava a calma. Um ritual que, embora inconsciente, nada mais era que um belo ato de oração. Um diálogo com o Cristo que existia no coração daquele rapaz. Mediado pela tranquilidade da água morna que lhe auxiliava a concentração.
-Na Bíblia, diversas passagens atestam pela possibilidade da reencarnação. Por exemplo, quando Jesus dizia: “-Na casa do meu Pai há muitas moradas. Ou, para alcançar o reino dos céus tens que nascer de novo”.
-Não estaria Jesus falando dos diferentes planos espirituais e planetas habitados por espíritos de diferentes necessidades e níveis de desenvolvimento? Como poderíamos nascer de novo, se não fosse pela luz da nova oportunidade do espírito encontrar um novo corpo?
-A ciência mostra que uma vez decomposto, o organismo tem seus átomos distribuídos novamente na constituição de outros seres materiais. É impossível que a ressurreição, como classicamente seja pensada, realmente acontecesse. Não dá para voltar com o mesmo corpo.
-A explicação mais lógica é que ao nascer de novo, nascemos em um novo corpo, para aprendermos sob um novo ponto de vista, ocupando uma posição que nos amplie os horizontes sobre as relações de afeto que devemos construir como filhos de Deus.
-Talvez, a passagem mais importante dessa condição seja a clara revelação de que João Batista era a reencarnação de Elias. 
Esbaforido, Alma se enrola na toalha e corre ao quarto, procurando a bíblia que sua mãe sempre deixava no criado mudo, ao lado da cabeceira da cama. Então leu:
Seus discípulos então o interrogaram desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” – Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem”. – Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara. (S. Mateus, 17:10 a 13; S. Marcos, 9:11 a 13) .
Alma, metido à cientista cético, fazendo mestrado, reconheceu o óbvio. A reencarnação era um fato claramente apresentado no evangelho. O próprio Jesus teria apontado que João Batista era a reencarnação de Elias. Um último choro lhe trouxe a paz que precisava. Era sim, uma retomada à religiosidade a partir de uma fé raciocinada, baseada em vozes do seu cotidiano. Deus falava através daquelas pessoas. As falas dos familiares não poderiam ser mera coincidência, quando relacionadas à intuição que lhe ocorrera. Naquele dia, sua fé voltava aquecer lhe o peito.
No entanto, algo ainda o intrigava. Por que voltar justamente naquela mesma família? Por que Emanoel teria sido filho e agora era seu pai?

sábado, 2 de março de 2013

Ciência e Espiritismo: a exposição de Alma


Era final de 2013, luzes de natal espalhavam-se discretamente pela cidade de Aracaju, no Brasil. Os pais e as sobrinhas de Alma estavam hospedados em sua casa. Uma situação difícil, porque Alma estava casado com Roberto há seis meses. Ambos não estavam muito seguros sobre sua condição e muito menos de como conseguiriam lidar com a situação das visitas familiares. Como todos reagiriam?
Ao mesmo tempo nosso personagem fechava mais um ciclo de estudos espíritas. Após quatro meses de reflexões diárias, sempre nos mesmos horários, sem falhar, havia terminado o estudo do livro “A Gênese”.
Todas as noites, às 22 horas, sentava-se à mesa e fazia a leitura, em voz alta, de um trecho desse livro tão esclarecedor. Anotava suas impressões e resgatava na gama de questionamentos que lhe cobria o espírito, elementos que se encaixavam e auxiliavam no entendimento do aporte lido. Era-lhe um bálsamo colocar em ordem suas inquietações investigativas, parte integrante de sua natureza espiritual.
Enquanto alguns pagavam por sentirem-se tímidos e calados, por vezes Alma se martirizava por não conseguir se calar, até que fizesse um questionamento ou que pedisse um esclarecimento, seja onde estivesse. Um impulso lhe acometia e antes mesmo de avaliar as possíveis consequências de sua questão - ela emergia, transformando aquela imensa angústia em satisfação; ao mesmo tempo em apreensão, posto que nem sempre os questionamentos parecessem bem vindos.
Esse turbilhão de inquietações sempre apareceu durante as atividades do Estudo Sistemático do Espiritismo, o ESDE, no Centro Espírita Paz e Bem. Em uma dessas discussões Alma foi envolvido pelo acolhimento de um dos monitores, que sempre lhe pareceu um líder nato, apesar da pouca idade. Nesse acolhimento, o irmão Alexandre lhe disse:

-Alma, você que sempre discute as questões da ciência, por que não prepara uma exposição para um seminário que teremos entre os alunos do ESDE? Se ficar bom, poderemos até leva-lo à doutrinária (aquela palestra que é oferecida pelo centro espírita aos irmãos necessitados de esclarecimento e consolação, estando encarnado ou desencarnado).

Alma, que fora tomado de intensa alegria, por sentir-se valorizado apesar de ser um pouco anarquista, tentando segurar-se para não cair em uma vaidade desvairada, e lembrando-se de quando fora acolhido anos antes no Centro Espírita Ternura e Luminosidade, em Itabaiana, respondeu:

-Não tem muito tempo que aprendi a não dizer não, em qualquer trabalho espírita que me oferecessem. Tudo bem que eu esperava lavar os banheiros, limpar os salões, mas se a espiritualidade amiga sugere que eu prepare um estudo, melhor ainda, farei.

Sol ou chuva, calor ou frio, à mão ou no computador, alegre ou triste, Alma se manteve firme em sua empreitada. Sentia-se como a própria lua, tão eficiente em sua pontualidade, para refletir os raios do sol, o Deus celestial. Assim como a lua, Alma às vezes sentia-se pleno e brilhante, cheio. Mas, em outras parecia tão desmotivado e sem brilho, às vezes crescido, outras diminuído, mas sempre ali, nem que fosse para rabiscar um desenho, nas noites mais escuras. E assim, o estudo e a palestra foram concluídos.
Em fins de dezembro, naquela noite pós-natalina que antecederia em alguns dias as festas do réveillon, Alma subiu ao púlpito. O coração parecia sair-lhe pela boca diante da grande importância que aquele momento marcava em sua vida. Era o fechamento de um ciclo de sua reforma íntima, ciclo este que será relatado aqui, nestas páginas. Não terei uma preocupação em marcar a cronologia, posto que a ideia seja que as histórias se complementem em sua inteireza. Cada uma com seu início, seu drama e sua conclusão, na melhor das hipóteses, trazendo-lhe, leitor, uma vontade continuar, um pouco mais o estudo sobre os assuntos aqui abordados. Será que é assim mesmo? O que disso tudo seria real?
Aviso de antemão que aquilo que lhe parecer mais óbvio provavelmente foi inventado, mas as mirabolantes trocas energéticas com o plano espiritual em suas mínimas e delicadas relações e detalhes são verdadeiras e reais, partindo da plena consciência de uma alma reflexiva, parecida com o Alma, mas em uma essência própria, menos confiante, mais conflitante e certamente lua – crescente.
Tomado por uma força serena, mas que parecia tirar-lhe o fôlego, temeroso em não conseguir respirar, Alma pronunciou sua primeira frase como expositor espírita.
Não foi uma das melhores, mas foi espontânea:

- Agora eu sei o que acontece com os cantores do show de calouros.
-Quando anunciam seu nome e você não pode mais fugir, você anda tresloucadamente à frente de um público que espera por você e pelo seu sucesso. Isso faz com que suba uma vigorosa responsabilidade sobre seus ombros que parece lhe dizer: “é isso ou o vexame”.

“Isso”, na verdade, era a única opção. Tinha muitas cadeiras entre Alma e a porta, quase duzentas. Mesmo que corresse muito, atravessar aquele salão seria impossível antes que suas pernas paralisassem.
Naquele momento, ainda um pouco sem ar, Alma continuou:

-Mas essa sensação é extremamente vivificante, pois nos fortalece a crer cada vez mais no plano espiritual. Sem o amparo dos irmãos queridos, invisíveis à grande maioria, não tenho dúvidas, eu estaria no chão.

Ele esperava um riso, um só que fosse. Mas, seria demais para um primeiro movimento, até porque como diria Roberto com todo seu método e seriedade: - Isso não é um show de comédia.
Eu até que tive vontade de rir, no lugar dos ouvintes, mas achei que poderia pegar mal. Alma poderia pensar que eu o estava ridicularizando. Melhor o silêncio do que ouvir algo como, uma grande amiga seria capaz de dizer: - tá rindo de mim ou pra mim?
Elucubrações nossas à parte, Alma continuou:

- O título desta palestra é “Ciência e Espiritismo”. E resultou de um desafio feito pelo meu monitor do ESDE, curso onde estou há um ano. Tentarei fazer o possível, com a benção de Jesus, para que possamos refletir e crescer no desafio de fazer do estudo a cura para nossos males da alma.

Essas eram as únicas credenciais que interessavam. Um pouco mais firme, embora ainda tentasse encontrar a melhor maneira de se ligar ao microfone, Alma continuou:

-Não é difícil aceitarmos que há duas grandes forças na sociedade cujas atribuições estão bastante associadas à formação intelectual e moral do ser humano. A ciência e a religião, há séculos, têm-se relacionado como contribuintes para a formação moral e o desenvolvimento da consciência.
-Um importante contributo que tem sido dado ao aprimoramento da sociedade, na integração e diálogo desses universos de formação, começou com o nobre trabalho do irmão Allan Kardec para a criação de um método que resultou na compreensão dos fenômenos espirituais e consequentemente no espiritismo.
-Qualquer aprendiz do espiritismo, em seus primeiros passos, no Estudo Sistemático da Doutrina Espírita, sabe que há três pilares constituintes dessa revelação: o filosófico, o religioso e o científico.
-O espiritismo é uma filosofia porque desperta a reflexão orientada sobre questões existenciais da vida humana, dirigindo-nos para caminhos do desenvolvimento moral e intelectual.
-Também, é uma religião, no sentido que promove a relação dos humanos com Deus, formando uma ponte de ligação com a Divindade, através da fé raciocinada, que leva em conta o estudo constante dos textos sagrados e das produções de irmãos encarnados e desencarnados, sobre diferentes temas da prática social e da natureza e história humanas. Um grande exemplo de servidor do bem na produção de livros ditados por desencarnados foi o caridoso irmão Chico Xavier, que produziu centenas de livros.
-É uma ciência, considerando que foi criada a partir de um conjunto de inferências metodologicamente elaboradas em um processo de investigação que possibilitou evidenciar a existência dos espíritos, bem como sua atuação na vida cotidiana.
-Allan Kardec era o pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, um pedagogo discípulo de Pestalozzi, considerado o exemplo de bom senso na investigação científica. Sob A influência do método científico da época, especialmente positivista, ele buscou compreender causas a partir dos efeitos; conhecer leis que descrevem os fenômenos; deduzir consequências e buscar aplicações úteis para o conhecimento produzido a partir da observação, comparação e análise de resultados obtidos na investigação das mesas girantes e das comunicações mediúnicas na França dos anos 1850 em diante.
-Para explicar o fenômeno das mesas girantes, é importante recuarmos um pouco até uma casa considerada mal assombrada no interior dos Estados Unidos, onde viviam as irmãs metodistas cujo sobrenome era Fox.
-Essa casa apresentava estranhos barulhos de batidas nas paredes, cortinas que se balançavam sem porquê, entre outras cenas que poderiam perfeitamente encaixar-se em um filme de terror. No entanto, em um belo dia, uma delas desafiou seus próprios medos e enfrentou aquela possível entidade ali existente, que era tida como um ser maligno. A menina batia palmas e dizia algo como:
“- Te desafio, seu coisa ruim, a fazer na madeira a mesma quantidade de pancadas que faço com minhas palmas”.
-Então a entidade lhe respondia exatamente como ela queria, com os barulhos na madeira. Com o tempo a menina foi tentando criar um conjunto de códigos, de modo que determinadas quantidades de sons significariam letras e assim ela foi descobrindo pouco a pouco que aquele ser era na verdade um homem, que teria sido assassinado naquela casa. Posteriormente, inclusive, foi descoberta a ossada completa do cadáver daquele irmão, escondida na casa.
-Tratava-se de um bom homem que teria vivido ali com seus filhos e esposa, entretanto que não se desligara do plano material diante de seu apego à matéria e à dor de ter sido assassinado.
-Independente destes promissores resultados de libertação do ser vivente que lá estava desencarnado, as irmãs Fox criaram um tipo de telegrafia espiritual, com códigos que permitiam a comunicação com espíritos através de sons que eles produziam em determinados objetos.
-Esse fenômeno migrou até Paris, onde em salões de festas as pessoas se reuniam ao redor de mesas, colocando suas mãos sobre elas, e ao fazerem perguntas frívolas sobre suas vidas, o objeto respondia com barulhos dentro da proposta da telegrafia espiritual criada pelas irmãs Fox. Contudo, as respostas eram bastante complexas.
-Em um desses eventos, que tinha como expectador intrigado o professor Rivail, uma entidade que autodenominou-se espírito da verdade disse que Rivail teria uma grande missão na terra, de compilar um conjunto de conhecimentos que daria início a uma nova revelação para a humanidade.
-Rivail sentiu-se interessado pela proposta e resolveu analisar mais de perto todos aqueles fenômenos e compreender que missão poderia ser essa. No início, ainda com poucos médiuns, Rivail ou Kardec, como preferir, atuava com um instrumento chamado cesta pião.
-Essa cesta teria o formato de um coração horizontalmente alinhado sobre a mesa, que em sua ponta guardava uma caneta perpendicularmente inserida de tal sorte que dois médiuns poderiam segurar em suas abas traseiras deixando a cesta mover-se, escrevendo, sem a necessidade do movimento da mesa.
-Com o tempo eles perceberam que a cesta era desnecessária. A caneta nas mãos dos médiuns representaria as mensagens dessas novas forças comunicativas, com a mesma fidelidade. Assim começaram as psicografias.

Alma, mais tranquilo em sua fala, controlando sua respiração e segurando o microfone em suas mãos, encostava o antebraço firmemente junto ao peito, para não transparecer que ainda tremia. Olhava para alguns dos rostos da plateia e identificava olhares atentos. Assim, firmando-se melhor em sua fala e aumentando um pouco a entonação, continuou:

-Hoje sabemos que a psicografia pode ser inconsciente, quando o braço do médium se move sem que ele saiba o que está sendo escrito. Mas, também pode ser consciente: quando as palavras lhes são inspiradas ao pensamento ao mesmo tempo em que ele escreve ou mesmo quanto lhes são inspiradas ao pensamento, já organizadas em um texto coerente, muitas vezes repleto de imagens, basta ao médium descrever.
-A existência dos espíritos não era uma hipótese, mas resultou da observação dos fatos. A teoria foi construída à medida que Rivail percebia padrões e lógica nas comunicações. Por exemplo, assim como hoje ainda é comum nas reuniões mediúnicas, ele percebia espíritos, de moral menos elevada, que se mostravam perturbados. Alguns destes não sabiam que estavam desencarnados. Enquanto outros, mais amadurecidos e de alto desenvolvimento moral, mostravam-se sóbrios e conscientes de sua condição.
-Com o tempo, tomando consciência das suas próprias reencarnações, Rivail resolveu utilizar um pseudônimo, inspirado em uma vida passada, quando foi um sacerdote druida, chamado Allan Kardec.
-Sob esse novo pseudônimo, Kardec conceitua que a ciência envolve a análise de processos de revelação dos segredos da natureza e os espíritos são fenômenos naturais, que podem ser observados pela ciência a partir do intermédio dos homens e das mulheres sensíveis à sua presença – os médiuns.
-Um elemento adicional ao que se compreendia como ciência na época foi o fato de que o fenômeno espiritual fala e explica a si mesmo. Aceitando isso, Kardec inova o seu método avançando na prática da pesquisa da época. O sujeito investigado se tornava coautor de sua obra. Não é apenas olhar para o espírito, mas receber o que ele tem a oferecer.
-Entretanto, conforme podemos aprender nas palavras da Gênese de Kardec “os espíritos não ensinam senão apenas o que é necessário para guiar no caminho da verdade, mas eles se abstêm de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo” (Gênese, cap. 1, item 50).
-Essa é a característica da terceira revelação. Se a revelação mosaica se impunha pela força e pela coerção e a do Cristo era conselheira e pautada na persuasão, a do consolador aparece em um tempo no qual o homem está mais exigente com suas descobertas – resulta do estudo sistemático, da pesquisa e do livre exame.
"Se me amais, guardais os meus mandamentos; eu rogarei a meu pai e ele os enviará outro Consolador, afim de que fique eternamente convosco. [...] conhecê-lo-eis porque ficará convosco e estará em voz" (João 14:15-17 e 26).
-O consolador é o conhecimento sobre o caminho, a verdade e a vida. É o evangelho claro e fortalecido na fé raciocinada e no espírito do cristão investigativo. O consolador é o espiritismo como filosofia que explica aquilo que estávamos acostumados a compreender como mistérios. Trata-se do link entre a Terra e o “céu”, o saber sobre os espíritos, construído com eles.
-A partir dos primeiros trabalhos de Kardec, os assuntos do espiritismo foram se distribuindo em vários locais de acordo com as afinidades dos médiuns. Havia uma multidão de médiuns intermediários, aqueles que afinavam com a ciência expressavam as comunicações relacionadas a ela, outros estavam sintonizados com as artes, outros com a moral e assim por diante.
-Nesse processo de comunicação com a espiritualidade, nosso cientista Kardec descobriu algumas premissas. São elas:
-Os espíritos só ensinam o que sabem;
-Há informações que não lhes é permitido revelar – os números da loteria, por exemplo, impossível.
-Sobre isso meu pai costuma contar uma piada que eu aclamo como uma das melhores de todos os tempos: -Um médium vidente teria recebido uma mensagem de um espírito que teria lhe dado os números do jogo do bicho. Ele apostou e ganhou muito dinheiro. Na noite seguinte ele recebeu a visita de outro espírito que lhe disse para apostar o dobro em outros números. Ele, como era muito fiel à sua mediunidade, apostou sem pestanejar. Fiel à ambição, também; não podemos duvidar. Entretanto, quando sai o resultado, ele descobre que tinha perdido tudo. Moral da estória: na primeira noite foi a mãe dele quem veio avisar os números; na segunda, foi a mãe do bicheiro.
-Eles evoluem, vão se despindo de preconceitos humanos, adotando visões mais elevadas;
-Compare, por exemplo, as discussões de Joanna de Angelis sobre os relacionamentos afetivos no início de sua obra, com as análises contemporâneas.
-Alguns ensinam errado por pura diversão: os famosos zombeteiros, que manipulam e constrangem porque não tem muita coisa melhor para fazer;
-No entanto, só eles, os espíritos de uma maneira geral, é que poderiam nos falar das coisas do além-túmulo.
-Diante dessas premissas, na construção do Pentateuco, houve um trabalho intenso de compilar dados, comparar e estudar analogias e diferenças, apreciar o grau de confiança das comunicações a partir da prova da lógica e da razão, distinguir entre ideias locais e outras sistemáticas generalizadas, afastar ideias desmentidas pela ciência e formular um todo coerente, homogêneo.
-A comunicação só era aceita depois que passasse pelo crivo da comprovação. As científicas eram postas à lógica da ciência da época. Um exemplo são as considerações sobre a lua, que foram psicografadas pelo cientista Camile Flamarion a partir da comunicação de Galileu, apresentadas na Gênese. Se comparadas com os estudos atuais, parecem extremamente amadoras e infantis, mas estavam muito próximas do escopo astronômico da época.
-Mesmo assim, ao acrescentar esse comentário do espírito de Galileu na Gênese, o bom senso de Kardec enfatizou suas possíveis limitações, dando-lhe o caráter de hipótese.
-Essa estreita relação do espiritismo com a ciência tem-lhe garantido uma vitalidade da qual outras religiões conservadoras estão longe de gozar. Nas palavras da Gênese (cap. I, item 55) o “espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará”.
-O espiritismo é um novo paradigma na construção do conhecimento e de valores sociais que se adequa ao vislumbre da santidade humana e sua aproximação, ainda inicial, da real constituição da Divindade, através da integração entre os passos rumo à melhoria da razão e da moral. Suas bases filosófica, científica e religiosa, são estímulos para que tenhamos o estudo e a curiosidade como importantes instrumentos de fortalecimento da fé.
-Não poderíamos deixar de aportar que os processos históricos de instituição da ciência e da religião, que durante muitos anos as concebeu como forças dissociadas, necessita de um profundo trabalho reflexivo para que nenhuma domine e desvirtue o significado da outra.
-Muitas vezes, no afã de despertarmos argumentos que revelem as verdadeiras forças da espiritualidade tendemos a usar da ciência, por motivo pouco reflexivo, na busca de provas que por vezes chamamos de irrefutáveis para “comprovarmos” a existência do mundo espiritual.
-Esquecemos que intuitivamente este sentimento de eternidade já é parte da nossa constituição humana. Não precisamos prova-la, seja para nós ou para qualquer outro.
-Mas, sabemos que a ciência pode sim, ser um importante instrumento de libertação das consciências orientando os estudos e reflexões que favorecem a evolução da humanidade através das gerações.
-Portanto, assim como a ciência, o espiritismo é uma teoria progressiva que se ampara em fatos e considerações anteriores para crescer; só estabelece o que está demonstrado por evidência ou que ressalta logicamente da observação; nunca estará pronto e acabado, considerando que está em constante evolução conforme evolui a sociedade dos encarnados e dos espíritos.
-O espiritismo não contradiz o materialismo [cientifico], mas o provoca. Caminha à par dele, mas onde o materialismo se detém, o Espiritismo prossegue. (Gênese, Cap. X, item 30).
-A gênese apresenta um amplo senso crítico ao espiritismo, inaugurando uma nova fase, onde importa muito mais o estudo sistemático do que o simples ouvir – precisamos criar oportunidades de estudo dentro dos centros e nas famílias.

Partindo para as considerações finais, Alma diminuiu a velocidade das suas palavras, dando um tom leve e lento, reflexivo e doce:

-Quando eu estou trabalhando no passe, uma atividade que recentemente iniciei aqui neste centro, eu imagino o poço da Samaria, onde Jesus está recostado, sentado no chão. Então, em pensamento, coloco o irmão que vai receber o atendimento com a cabeça no colo de Jesus, para escutá-lo e receber seu afago.
-Porque ali, naquele lugar, Jesus falara para a samaritana sobre a educação que cura.
-Eis a água que sacia a sede e que nos faz fonte viva: o conhecimento. Bom estudo a todos e a todas.

Ao concluir sua fala esse expositor não duvidava que muitos ali conectaram-se com a espiritualidade amiga, fortalecendo-se para o estudo edificante e cristão. Alma retirou-se em silêncio, para fora da sala, onde aguardou seus pais que tomariam o passe antes de encontrarem-se com ele.
No anonimato, de quem estava em um canto da parede afastado dos demais, quieto e agradecido, Alma ouviu um rapaz tímido perguntar junto ao recepcionista do centro:

-Como posso me inscrever para o ESDE?

"Trombetas tocaram nos céus". Alma regozijou-se em Jesus e no seu íntimo fez um fervoroso agradecimento ao Pai celestial pela oportunidade de ter participado do trabalho que ajudou àquele irmão, mesmo que aparentemente fosse apenas um, dentre os duzentos que ali estavam. Nosso aspirante à expositor sentiu uma das maiores alegrias que o ser humano pode experimentar na experiência terrena – ser útil à Jesus.