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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Educação e obsessão espiritual: aceitação e cura

Era quinta-feira à tarde, na angústia pelo fechamento de uma prestação de contas de um projeto de pesquisa, que me desesperava, eu não conseguia parar com o que fazia para pensar na palestra que precisaria ser dada no dia seguinte, durante o evento da Sociedade Médica Espírita de Sergipe.
Estava isolado em casa durante toda a semana trabalhando nesse relatório que me consumia as forças. Estava em jogo muito mais o aspecto emocional que isso denotava do que o fluxo de trabalho em si. Havia mais energia de ansiedade do que trabalho duro no processo. Isso tudo devido à minha pouca maturidade na administração de recursos públicos. O medo de que algo desse errado oprimia-me o coração. Eram muitos documentos e detalhes a considerar.
Meditei várias vezes naquele dia, desde as 5:30 da manhã. Sempre que minha mente se mostrava confusa e minha alma oprimida, parava o trabalho. Após uma breve prece, me colocava a buscar uma conexão com o presente, reformando-me para longe das angústias e dores geradas por mim mesmo.
Senti a presença de entidades trabalhadoras do bem, ajudando-me na resolução das contas.  Emocionado, agradeci ao Pai, reconhecendo minha insignificância pessoal diante da tarefa. Eu era apenas um instrumento encarnado que servia de veículo para que espíritos mais nobres auxiliassem no desenvolvimento da ciência em meu país.
No dia seguinte, quase que vinte e quatro horas depois, eu deveria fazer uma apresentação a um grupo de estudiosos da doutrina espírita, na cidade de Aracaju. Um grupo sério e preparado de espíritas que buscavam compreender e gerir suas atividades profissionais conectando-as com o trabalho confortante do espiritismo.
Mesmo que a contragosto, eu estava atrasado para a preparação da palestra, então parei o trabalho, que enlouquecidamente me dedicava a terminar, tomando-me por uma outra angústia, o pouquíssimo tempo para pensar em uma fala sobre tema tão delicado: O Papel da Educação na Cura da Obsessão Espiritual.
Mais uma vez, coloquei-me sentado, de pernas cruzadas, coluna ereta, com o foco de atenção na respiração: precisava Meditar. No cantinho que preparei com um tecido ao chão e almofadas, concentrei-me na conexão com o universo e com o Deus de amor que em mim habita, assim como em qualquer outro ser humano.
Depois de quase 30 minutos uma mensagem foi despertada nos recônditos do meu inconsciente, remetida pela parte de mim que representava a consciência do meu plano reencarnatório: -Não tem o que temer, querido irmão. És tu, um instrumento escolhido por Deus para divulgação dos ensinamentos do mundo espiritual. Através de ti o Cristo se manifestará. São dele as palavras pronunciadas e as linhas escritas. Cabe a ti, apenas, a disposição para transcrevê-las, além de se mostrar presente nas atividades instrutivas que teus mentores preparam caridosamente para o teu desenvolvimento. Essa preparação, dada pelos cursos, palestras e durante suas leituras, lhe confere conteúdo necessário à utilização dos mentores enviados por Jesus, que proferem ensinamentos em nome do Pai amoroso.
Depois de tal inspiração, levantei-me ainda angustiado, como se eu devesse expressar de dentro de mim uma intensa energia de amor, que ali fora depositada. Sentei-me e escrevi, em 20 minutos, o texto que posteriormente foi organizado em slides para a apresentação ao público espírita.
Cenas com informações provenientes de lembranças sobre cursos e leituras vinham à minha mente quase como um balé. Memórias auditivas e visuais, falas e conceitos que amparavam a temática a ser ensinada, em uma lógica sequencial impressionantemente clara; em alguns momentos até assustadora aos meus olhos, posto a inovação com que os temas eram tratados. Surgiam à minha mente e iam embora à medida em que eram escritas por minhas mãos.
Posteriormente descobri que se tratava do fenômeno mediúnico da captação da oratória descritiva, tão bem descrita pelo espírito Camilo em "Memórias de um Suicida". Produzida pelos mentores, que me transmitiam como em uma sequência de slides, minhas próprias lembranças, organizando em mim algumas informações de maneira sequencial, quase que renovando todo o conhecimento que eu trazia sobre o assunto, colocando-o em novos prismas.
Eu me recusava a acreditar nas relações temáticas propostas, duvidava e ria, amorosamente, do brilhantismo com o qual eu recebia aquela aula que mais tarde deveria retransmitir. Não tenho dúvidas que estive longe de expressar toda a clareza da obra Divina que ali desfilava aos meus olhos, a partir de lembranças despertas em minha mente.
Em lágrimas, terminei o texto, respirei e me coloquei a preparar a apresentação. Mais uma vez estive atento à lógica da estrutura textual e, avaliando positivamente o que fora expresso, coloquei-me a ajeitar detalhes da digitação e a organização dos slides, que por orientação dos mentores deveriam ser o mais simples possível, com fundo branco e letras pretas, de tamanho bem grande.
As questões norteadoras foram-me apresentadas ao final para que minha confiança na mensagem fosse testada, inclusive minha atenção à lógica e à possível veracidade daquilo que eu escrevia.
Fui duvidando do texto, até que, como chave de ouro, as questões foram propostas e fecharam o que estava escrito: 1) qual a relação entre educação e obsessão no desenvolvimento do espírito? 2) qual educação cura a obsessão?
Faltou-me coragem para, no momento da apresentação, explicitar a responsabilidade dos espíritos na construção daquele trabalho, talvez por minha inexperiência no campo mediúnico; ou mesmo pelo orgulho e pela vaidade de alguém que temia passar por ridículo. De qualquer forma, com uma pontinha de insegurança, que começou a me fazer refletir sobre um nervosismo iminente, iniciei a palestra. Antes mesmo que esse nervosismo viesse a me atrapalhar, uma mensagem novamente me foi desperta na consciência: "-lembre-se, você é um instrumento do Cristo e as pessoas merecem essas informações, mesmo que as critiquem e, por ventura, refutem; elas servirão para importantes reflexões".
Portanto, as considerações iniciaram-se a partir das questões propostas e seguidamente uma breve introdução foi apresentada, com ela, toda a discussão previamente preparada em um texto de 10 laudas, que foi construído durante 20 minutos. Esse texto foi reorganizado e encaminhado para uma publicação na revista da Sociedade Médico-Espírita. Uma versão um pouco mais detalhada foi apresentada nos parágrafos seguintes:
Nesta fala buscamos, em primeiro lugar, definir as obsessões e suas tipologias; em segundo, trazemos a noção de “ação persistente do espírito obsessor”, sob o prisma da Programação Neolinguística, através da compreensão do conceito de rapport. Por fim, apresentamos um argumento sobre o rapport entre os espíritos envolvidos no processo obsessivo como possibilidade de elucidação de sombras psicológicas.
A obsessão: conceito e tipologias
Na questão 459 do Livro dos Espíritos, eles dizem que o plano espiritual pode nos influenciar a ponto de nos dirigir (KARDEC, 2011a). Nessa passagem, podemos interpretar que não se discute sobre a qualidade da influência de um espírito sobre outro, se para o bem ou para o mal, mas que todo o empreendimento humano sobre a terra receberá assistência espiritual; seja em ações positivas, para o desenvolvimento da humanidade, com sugestões e apoio dos espíritos superiores; ou mesmo, em atividades de menor nobreza, que estarão sob a ação de espíritos ainda ingênuos e malfazejos.
No livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (KARDEC, 2011b), há uma definição sobre Obsessão Espiritual. Segundo ele, a obsessão
é a ação persistente que um espírito mal exerce sobre um indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais. (KARDEC, 2011, Cap. 25, Item 81).
Na tentativa de compreendermos os tipos de obsessão, podemos classificá-las de três maneiras:
1.      Conforme a relação estabelecida entre os espíritos envolvidos, podem ser:

·         De desencarnado para desencarnado: quando um espírito escraviza outro, hipnotizando-o e controlando suas ações;
·         De desencarnado para encarnado: quando somos influenciados persistentemente pelos espíritos ao nosso redor;
·         De encarnado para desencarnado: quando exercemos influência sobre aqueles que desencarnaram por força magnética gerada, por exemplo, por pensamentos de posse. Às vezes prendemos junto a nós os entes queridos que desencarnam. Isso ocorre devido a energia magnética que desprendemos egoisticamente, justificando dor, na ação de chorarmos e sofrermos desvairadamente por aqueles que desencarnaram: a) -Meu Deus! Por que levastes fulano? Ah! Minha vida não tem mais sentido. b) -O que será de mim, fulana, sem você? O que será de nossos filhos? Não me abandone!
·         Auto-obsessão: quando o indivíduo cria comportamentos e assume determinadas posturas corporais que limitam suas ações, gerando auto-sabotagem e até mesmo doenças, por conta de culpas pretéritas ou mesmo na tentativa de conseguir atenção daqueles que estão ao seu redor. Há um foco intenso na busca por alimentar o corpo de dor ou o eu inferior. Geralmente, com o tempo, o indivíduo recebe outros espíritos que vibram em conexão com esses comportamentos, contribuindo para o agravamento do quadro;
·       Ovóide: quando espíritos desencarnados estão muito apegados a ideias fixas, por exemplo, de vingança, culpa ou mesmo vinculadas à prazeres compulsivos, como práticas sexuais e dependência a drogas, seus membros periespirituais se atrofiam de maneira que a única parte proeminente do corpo espiritual será o corpo mental, dando ao ser o formato oval;
·       Zooantropia: o indivíduo desencarnado recebe estímulo para a hiperprojeção de instintos animalizados, por força de hipnose, produzida por espíritos que o escravizam, de maneira que assumem formato de animais. O mais clássico é o obsedado assumir o comportamento de lobos (licantropia), contudo, Pinheiro (2013) mostra indivíduos que assumem formato de aracnídeos, serpentes, ratos e morcegos, no caso de obsessões sexuais.
2.                  Conforme a intensidade do controle exercido

·      Simples: quando há uma influência leve de um indivíduo sobre a outra pessoa. Sugestões para que a outra pessoa faça determinadas coisas, como por exemplo: beber, fumar, ser infiel, ou assuma determinados estados psicológicos como de raiva, tristeza etc.

·      Fascinação: quando o obsessor age sobre a vaidade do obsidiado. Lhe sugere poderes, forças, ações e depois o coloca em situações nas quais é ridicularizado. É o caso de médiuns que, por exemplo, acreditam emitir mensagens diretamente do próprio Jesus Cristo. Esses podem estar em processo de fascinação, até porque, provavelmente, Jesus não revelaria sua identidade em uma psicografia, diante de sua humildade, caso acontecesse, posto à improvável possibilidade de espíritos tão densos como nós, termos acesso de comunicação com um espírito puro.

·      Subjugação: quando o espírito obsessor tem total controle das ações daquele que a sofre.
3.             Conforme o motivo da influência exercida, o espírito obsessor pode ser:
·      Consciente do mal que causa: quando age por vingança, por ódio, ou mesmo por diversão, causando inconvenientes e dor nos obsidiados;
·      Inconsciente do mal causado: quando há alguma proximidade ou admiração do espírito obsessor pelo obsedado, de maneira que aquele não queira se desligar desse. Por exemplo, uma mãe que desencarna e insiste em ficar na casa onde estão os filhos, sem perceber que seu desequilíbrio energético pode afetar os indivíduos que ali habitam[1];
·      Associado ou Simbiótico: quando ambos se beneficiam da associação ou simbiose, apesar dos males causados. Um exemplo, pode ser encontrado no livro Sexo E Destino psicografado por Chico Xavier, no qual obsessor e obsedado, compartilham os fluídos do whisky bebericado pelo encarnado. Ao mesmo tempo, o espírito cuida para que este seja protegido de acidentes, de maneira que continue servindo como um bom “copo”, material.
As classificações aqui apresentadas nos possibilitam melhor compreensão sobre as formas com as quais as obsessões podem assumir papeis na vida dos indivíduos, estando eles encarnados ou desencarnados.
Podemos compreender, portanto, que o obsessor só consegue agir, caso encontre no obsedado (aquele que sofre a obsessão) um ponto de ligação, uma sombra psicológica. O obsessor funciona como um amplificador daquilo que possuímos dentro de nós, escondido em nossas sombras. Nossa mesquinhes, nosso egoísmo, nosso orgulho, nossa soberba, nossa culpa, etc, são plugs vulneráveis para a conexão de obsessores. Como apresentou Schubert (1982, p. 9) “[...] sabemos, através dos ensinamentos da Doutrina Espírita, que a obsessão existe por estarmos ainda eivados de sombras”.
A sombra, construída conceitualmente por Carl Jung, perde sua força de opressão quando integrada ao ser. Se minha sombra é a covardia, quando a integro ela perde a força e pode se tornar cautela; se é a feminilidade, pode se tornar sensibilidade; se o apego, pode se tornar cuidado. Ela carrega
Um determinado aspecto de cada um que destrói os relacionamentos, mata o espírito e nos impede de realizar nossos sonhos. [...] Contém todas as nossas facetas que tentamos esconder ou negar; os aspectos sombrios que julgamos não serem aceitáveis para a família, para os amigos e, mais importante, para nós mesmos. [...] Nossas sombras são detentoras da essência daquilo que somos, guardam os nossos bens mais preciosos. [...] Os sentimentos que abafamos estão ansiosos para se integrar a nós mesmos. Eles são prejudiciais apenas quando reprimidos (FORD, 2013, pp. 19 – 21).
Se por um lado o obsessor nos causa dores e sofrimento à medida que amplifica nossas sombras, por outro, encontramos neles uma ótima oportunidade para encará-las de frente, promovendo um processo de educação pela reforma íntima.
A Educação e a Programação Neurolinguística do Ser
A educação se expressa em atividades de relação. Ela pode ser formal, com um objetivo de ensino-aprendizagem previamente pensado, conforme vivida nas escolas. Ou, gerando aprendizados mútuos, entre humanos que interagem no dia a dia, como acontece com a educação vivida no contexto das famílias e grupos sociais.
Relação é algo natural e necessário ao ser humano. Para Santo Agostinho, por exemplo, a pessoa é uma relação. Sou uma pessoa porque sou pai, sou filho, sou irmão, sou mãe. Cada individualidade, portanto, é um nó que agrupa os diversos processos de relação.
Do ponto de vista do desenvolvimento espiritual, a educação inicia-se a partir de nossa criação, como espíritos desprovidos de discernimento. Então, caminhamos rumo ao desenvolvimento, em busca da purificação espiritual (KARDEC, 2011a).
Nesse processo de amplo ensino-aprendizagem do ser, corpo e mente constituem-se um conjunto indissociável. As leituras de diversas obras espíritas e científicas nos mostram que isso é fato tanto no plano terreno, no que se refere à indissociação entre corpo material e a mente (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995); como espiritual, no que se refere ao corpo perispiritual (KARDEC, 1999).
As marcas dos sentimentos positivos e negativos ficam registradas no perispírito do ser vivente, que está em processo de evolução. Alterações no estado mental afetam a estrutura corpórea e alterações corpóreas afetam o estado mental, tanto neste quanto no plano espiritual. Conforme apresentado na Gênese espírita, “[...] O pensamento cria imagens fluídicas, e se reflete no envoltório perispiritual como num espelho; o pensamento toma corpo e aí se fotografa de alguma forma [...]” (KARDEC, 1999, p. 240, Cap. 14, item 15).
Partindo desse princípio, da indissociação entre corpo/mente/espírito, podemos compreender, por exemplo, que uma depressão, ou qualquer outra doença, podem ser criadas pelo indivíduo. Da mesma forma, a alegria, como possibilidade cotidiana e de essência, pode trazer benefícios energéticos de cura e de desenvolvimento ao corpo físico (ROBBINS, 2003; MOREIRA; CRUZ, 2013).
Dependendo de como eu me posto ou respiro, posso alterar estados de consciência, bem como assumir emoções e sentimentos. Da mesma forma, qualquer notícia que me cause desequilíbrio, pode afetar imediatamente minha respiração e postura (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995). A respiração é uma das ferramentas mais importantes na ligação entre estado emocional/espiritual e a aparelhagem corporal terrena. Não por acaso, diferentes tipos de terapias meditativas milenares baseiam-se na observação da respiração.
O mais interessante é que indivíduos em harmonia, uns com os outros, respiram no mesmo ritmo e profundidade. Não apenas tendem a imitar a respiração construindo uma vibração semelhante, como também se espelham em comportamentos e posturas corporais, em casos nos quais buscam interação (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995).
Assim, caminhamos para a ideia da Programação Neurolinguística de que a maior parte da comunicação entre os seres humanos é feita pela linguagem corporal (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995).
Somos tão ligados uns aos outros que nossas capacidades nos permitem sofrer juntos - eis o significado da compaixão[2]. Quando observamos um ser humano ferido, tendemos imediatamente a manifestar emoções dolorosas. Da mesma forma, a presença de um irmão sereno, pacífico e harmonizado, com propósitos Divinos, nos leva a responder com um grande e delicioso movimento de relaxamento. Essas relações estão regidas pelo rapport - uma palavra utilizada para descrever esse estado de relação, mais ou menos profunda, entre os humanos, promovendo-lhes estados vibracionais parecidos, em situações nas quais querem interagir.
"-Acompanhe, acompanhe e conduza", é o que dizia meu professor no curso Practitioner em de PNL[3], quando tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre essa área. Se acompanhamos os movimentos, o tom de voz e a respiração daquele que está interagindo conosco, de maneira natural, mas consciente, temos grande chance de estabelecermos uma ligação. À medida que a ligação emocional for efetuada, mudando sutilmente nossa postura corporal, tom de voz e/ou respiração, nos surpreenderemos com o espelhamento de nosso interlocutor. Ainda, em rapport, podemos inclusive propor induções hipnóticas ao interlocutor que estará aberto a depositar em nós sua confiança, seguindo-nos as instruções. Da mesma forma agem alguns obsessores, através da hipnose, induzindo suas vítimas às mais torpes situações.
O rapport é uma característica natural do ser humano e permite através da aproximação das linguagens corporais, também a aproximação dos estados emocionais de dois ou mais sujeitos, está registrado em nossa biologia, pelo que os cientistas chamam de o neurônio espelho. Conforme Lameira, Gawryszewski e Pereira Jr., 2006), trata-se de um complexo neuronal que nos permite a conexão natural, normalmente inconsciente, uns com os outros, gerando estados vibracionais que nos vinculam.
Essa vinculação é um dos motivos que nos fazem evoluir coletivamente, ou mesmo estacionar coletivamente, posto que estados gerais de otimismo e pessimismo, de serenidade e de fúria, podem ser difundidos e compartilhados. Segundo Schubert (1981) só entramos em ligação com o sentimento alheio se em nós o mesmo estado emocional se fizer presente, em mesma sintonia de equilíbrio ou de desequilíbrio.
Se apenas consigo expressar o que tenho dentro de mim, só consigo oferecer ao outro aquilo que trago comigo e só recebo do outro aquilo que para mim faz sentido, ou seja, algo que também há em mim, a isso chamamos projeção. As projeções são importantes indicadores sobre as sombras que possuímos. Se eu pensar sobre as coisas que mais amo e mais odeio nos outros, vou conseguir descobrir momentos em minha história em que já apresentei essas mesmas características. Segundo Ford (2013) um bom exercício é aceitar essas características em mim, perguntando à uma partezinha lá dentro do meu ser, o que de positivo cada um desses aspectos trouxe à minha vida.
Tudo isso que viemos dizendo, de que há uma ligação entre os humanos, e que ela só existe por sentimentos e emoções compartilhadas, significa que as perguntas e respostas estão todas em nós, como a centelha Divina que constitui nosso ser. Imagine que uma árvore é um ser que ainda não acessou a energia da raiva dentro de si, portanto jamais se conectará à raiva humana.
Quando espiritualmente imaturos, tendemos a achar que a fonte de nossa alegria ou de nossa tristeza está no outro. Podemos dizer, sob força do ego:
-     Fulano me machucou. Fulana só me faz raiva.
Contudo, a pergunta deveria ser: -“o que eu tenho em mim para que essa relação me desperte tais sentimentos e como devo direciona-los?”
Essa clareza, de que todas as responsabilidades do meu destino estão em mim, aparece à medida que expando a minha consciência para criar novos comportamentos, diminuindo e até mesmo deixando de me ligar àqueles menos dignos, posto que me mostro capaz de acolher as minhas próprias sombras com amorosidade, integrando-as em mim, de maneira produtiva.
Pequenos passos para o autoconhecimento
Como se dá esse processo de expansão da consciência na relação com os espíritos? Apresento duas opções, certamente correndo no erro de demasiada simplificação. Pela ligação: 1) amorosa ou 2) dolorosa.
No primeiro aspecto:  nos conectamos ao comportamento dos espíritos mais nobres, na construção de sentimentos mais puros, sentindo-nos amados por eles e por seu testemunho de amor a todos nós. Essa ligação se dará por ferramentas psicológicas amparadas em valores pessoais firmes de pertença coletiva ao grupo dos filhos de um mesmo Pai.
À medida que desenvolvemos esses valores, em determinados aspectos de nossa vida, também somos imitados pelos nossos irmãos, mesmo ainda estando nós distantes da purificação completa. Percebemos que não precisamos ser santos para identificarmos em nós possibilidades libertadoras, luzes e capacidades de desenvolvimento. Assim, focamos em nossas qualidades, ocupando-nos de expandi-las e direciona-las cada vez melhor ao bem pessoal e, consequentemente coletivo, posto que pessoa é relação.
No segundo aspecto, da dor: estabelecemos parcerias através de comportamentos e sentimentos menos dignos com cúmplices de graus de desenvolvimento tão rudimentar quanto o nosso. Oferecemos-lhes ou aceitamos deles, objetos afetivos menos nobres que tendem a nos vincular a necessidades materiais, como os de:  ódio, luxúria, avareza, medo, baixa autoestima.
É importante nos atentar que a ligação obsessiva pode se iniciar por iniciativa tanto do outro, como de nós mesmos, até porque ambos apresentam os mesmos desequilíbrios emocionais marcados em seu perispírito. Esse outro pode ser tanto um indivíduo encarnado quanto um desencarnado. No entanto, cabe a nós e não ao outro, a iniciativa de quebrar essa relação ou conduzi-la para uma ligação que se transforme em frutos positivos.
Essas relações dolorosas geralmente nos servem para enxergarmos nossas sombras, ou seja, acessar crenças, valores e comportamentos que queremos desesperadamente esconder ou que por força de nosso orgulho nem se quer percebemos que estão em nós.
O grande primeiro passo é reconhecermos a sombra que se manifesta nas relações com o obsessor, buscando compreendê-la e redirecioná-la. É importante que aceitemos a sombra como algo que nos é importante para a evolução, o que pode ser doloroso, mas, também um grande alívio.
As reflexões podem nos ajudar a transmutar as sombras. Devemos nos perguntar: o que há em mim para que na relação com aquela pessoa eu tenha me deixado despertar esse sentimento? Assim, o que poderia ser inveja, pode se tornar admiração. O que poderia ser ambição, torna-se significado e assim por diante. Ao ser compreendida e aceita, a energia da sombra perde sua intensidade e passa a ser usada para o bem (FORD, 2013). Assim, os obsessores perdem o ponto de conexão conosco.
O redirecionamento dessas energias geradas nas relações de dor, podem ser muito positivas para nosso desenvolvimento, desde que acolhamos as sombras ou sentimentos menos nobres que nos tem movido, aprendendo o que eles nos têm a dizer, transformando-os em energia para o crescimento. Quantos casos de pessoas que passaram enormes dificuldades e se tornaram exemplos de luz?
A busca pela consolação é o maior dos aprendizados. É o autoconhecimento que gera autoamor e autoaceitação, consequentemente aceitação e amor aos outros. A consolação vem da compreensão, mesmo que inconsciente, de que a dor é minha. Não é algo que o outro me causou, é algo que há em mim, que me faz refletir, me mover, despertar o autoamor. Para Moreira; Cruz (2013) o amor que resgata a dignidade humana  é uma fonte inesgotável  de cura e nos acorda para o fato de que somos importantes simplesmente por sermos filhos de Deus.
Queremos mostrar, portanto, que a obsessão é uma forma de relação, como a educação. Ela nos desperta para as nossas sombras, com o propósito de fazer com que cada um se ligue consigo. Um indivíduo espelha o outro (obsessor e obsidiado), para que descubram dentro de si o que precisa ser resolvido, mas que não lhes é aparente. É a educação pela dor.
Uma relação dolorosa, de almas ainda em desequilíbrio, que só existe por um propósito, de nos libertar de nossas sombras. E, deixará de existir quando precisarmos apenas da educação pelo amor, aquela focada no autoconhecimento. Portanto, a educação que cura a obsessão é a do autoconhecimento. Ele nos ensina que devemos ser gratos à essas interações, mesmo que intempestivas, posto que nada escapa ao plano Divino e tudo que por Ele é permitido tem um propósito fundamental: o desenvolvimento do espírito humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FORD, Debbie. O lado sombrio dos buscadores da luz: recupere seu poder, criatividade e confiança, e realize os seus sonhos. Tradução: Rosane Albert. 6ª reimpressão. São Paulo: Cultrix, 2013.
KARDEC, Allan. A gênese: os milagres e a predições segundo o espiritismo. Tradução de Victor Tolendal Pacheco; 1ª Ed. São Paulo: LAKE, 1999.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos; Tradução: Guilon Ribeiro. 2 ed. São José do Rio Preto: Virtue Participações LTDA, 2011a
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritísmo; Tradução: Guilon Ribeiro. 2 ed. São José do Rio Preto: Virtue Participações LTDA, 2011b
LAMEIRA, Allan Pablo; GAWRYSZEWSKI, Luiz de Gonzaga; PEREIRA JR., Antônio. Neurônios espelho. Psicol. USP,  São Paulo ,  v. 17, n. 4, p. 123-133,   2006 .   Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642006000400007&lng=en&nr
m=iso>. access on  14  Sept.  2015. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642006000400007.
MOREIRA, Andrey; CRUZ, Dias da (espírito psicografado). Autoamor e outras potências da alma. Belo Horizonte: Editora Ame, 2013.
O’CONNOR, Joseph; SEYMOUR, J. Introdução à programação neolinguística: como entender e influenciar as pessoas. 7 ed. São Paulo: Summus, 1995.
PEREIRA, Yvone do Amaral. Memórias de um Suicida, (ditado pelo espírito de Camilo Cândido Botelho). Digitalizada por L. Neilmoris. Brasília: Federação Espírita Brasileira, 2008.
PINHEIRO, Luiz Gonzaga. Obsessão sexual: uma porta para a loucura. 4ª reimpressão. Capivari, SP: EME, 2013.
SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão e desobsessão. Brasília: Feb, 1982.







[1] Veja um exemplo no Livro A Casa do Escritor, psicografado por Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho;
[2] Segundo Alan Ahlmar, headtrainer de PNL: compaixão poderia ser definida como o mais profundo rapport, ou, o que ele chamou em 2014, durante o curso de formação em Advanced Practitioner do INEXH, um Megarapport.
[3] Neil Negrelli, do INEXH