Após ser colocada na carruagem policial, aquela jovem mulher via seus filhos cada vez mais distantes, pela pequena janela de grades. Os pequeninos, com dois e quatro anos, não tinham a menor noção do que acontecia com sua mãe. Enquanto ela os via distanciarem-se, ficando naquele beco que ela tanto amava, ao pé da ladeira, entre o passar de galinhas e cachorros, resignava-se com uma tristeza indescritível, imaginando que sua história humana, acabaria ali.
Aquela mulher não tinha ideia do que lhe aguardava, mas sabia que era a última imagem que teria dos seus pequenos. Um grito lhe custava a sair, engasgado no estado de choque que lhe tomava. Antes que a dor mais lancinante lhe dominasse o ser, na vontade de gritar aos pequenos sobre quanto os amava, manifestando todo o seu desespero, recobrou-se com a serenidade daqueles que se abeiram da morte inevitável.
Dizia então, a si mesma, abafando o grito de dor:
-Não! Não os lançarei ao desespero, eles pouco compreendem sobre a vida. Aos poucos, cairão nos braços da resignação e em seguida terão com a superação.
Ousadia e força eram os temperos daquela espanhola, de longos e ondulados cabelos negros, esbelta e cheia de vida. Era uma senhora que não tinha medo de romper com os paradigmas sociais; artista completa, dizia o que lhe convinha com inteligência, ao badalar suas castanholas com altivez ou no riscar dos pincéis, sobre suas telas cheias de vitalidade e confiança. Contudo, por vezes exagerava em seus posicionamentos militantes e feministas, prejudicando-se no campo da sexualidade, pelo exacerbado apelo à sensualidade e ao sexo.
Ao mesmo tempo, vivia intensamente suas paixões, sem criar mentiras ou hipocrisia aos olhos de quem quer que fosse, posto que para si, não fazia nada além de amar.
Vivia como toda mulher deveria ter o direito de ser, naquele mundo onde os homens estavam cheios de possibilidades e as mulheres cobertas por um véu de vergonha e medo, que as colocava no submundo do prazer interdito, por vezes, maldito e sempre; sempre inaudito.
Foi acorrentada naquele porão fétido, cheio de pedra e ferrugem. Aterrorizada pelos gemidos femininos que lhe entranhavam os ouvidos, reconhecia-se sob a tutela da Santa Inquisição. Grunhia de revolta, cega de ódio daqueles que ali a colocaram.
Essa força duraria pouco tempo. Essa mulher, rapidamente descobriria que anular-se completamente, naquele lugar, era uma moeda de ouro.
Receber um mínimo de gentileza, mesmo que um olhar de compaixão, valia muito, para quem estava completamente à mercê dos homens que usavam o nome do Santíssimo, para cobrarem aos outros um comportamento sagrado que eles próprios recusavam a buscar dentro das próprias sombras.
Anular-se significava agradecer pelo benefício do sofrimento que proporcionava a sua própria purificação. Anular-se, significava apanhar sem despertar o ódio. Era transformar-se no objeto de um trabalho. Um brinquedo, aos poucos estraçalhado. Sem ódio, pela fé, pela cega e nebulosa fé, imposta pela Lei.
Na antiga Casa Régia de Murcia, projetada pelo meu ancestral Pedro Pagan, que se tornou o posto da Santa Inquisição, nossa amiga duraria consciente por poucos minutos.
Após o primeiro golpe, sua delicadeza feminina se curvou, perdida. Depois disso, entre acordada e desfalecida, pouco lembraria. Quanto tempo passou ali? Qual o propósito de sua estada? Que horrores foram vividos?
Com o tempo, as dores eram anestesiadas.
Um cadáver que espargia vida, entre hematomas de pancadas e o nojo do esperma que lhe deixavam nas entranhas, era uma descrição amena de uma cena sobre a incrível capacidade humana de suportar.
Uma coisa, ela não esqueceria jamais, nem com trezentos anos. A cena final.
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Nos dias atuais, Alma seguia em seu carro pelas ruas da linda Aracaju, se alegrava com aqueles que caminhavam pela avenida 13, apreciando o mangue e a maré, ao seu lado direito, banhadas pelo radiante dia de sol.
Por dentro, uma angústia inexplicável lhe consumia. De que fonte bebera aquele sofrimento que internamente insistia em contorcer-lhe o peito? De certa forma, acreditava que o simples fato de seguir para seu encontro semanal com a Dra. Olga, sua terapeuta, lhe bastasse para começar a mobilizar suas angústias.
Ao aportar na agradável clínica, repleta de entidades beneméritas encarnadas e desencarnadas, procedentes das mais diversas etnias, que enchiam o plano espiritual com nuvens carinhosas que se abriam para a passagem de clarões de luminosidade curativa, Alma mal cumprimentou as pessoas sorridentes que pelos corredores conversavam, subindo as escadas com rapidez.
Entrou na sala agitado, sentia-se como mergulhado em um mar de cogitações que lhe abafavam a respiração. Sentando-se de frente com Olga, que além de grande terapeuta transpessoal era também psiquiatra, desabafou:
- Quase não vinha para cá hoje. Apesar de perceber-me bastante angustiado, sinto como se estivesse girando em um circulo vicioso de cenas cotidianas que se repetem, mas não atacam realmente a fonte da dor que carrego.
Olga, com sua experiência de mais de vinte anos de trabalho, respondeu:
-Então, deite aqui (apontando uma cama que se localizava na parte de trás da sala, meio que ao lado da cadeira dela), vamos entender o que te aflige.
Mal deitou-se, e sem que qualquer técnica de respiração fosse aplicada (como em outras vezes teria acontecido) devido ao desdobramento de seu espírito, Alma sentiu suas pálpebras fecharem como que com várias dobras e, em seu peito, aquela angústia parecia explodir, como se realmente ele mergulhasse em um caminho sem volta, no enfrentamento da real causa daquele abatimento que lhe havia tomado.
- Um grito de desespero e dor fez-se estremecer nas redondezas... Um grito de apelo, de amor, de premonição quanto ao mal que havia de chegar, ou que teria acontecido. Algo que parecia abafado há séculos. Um grito acompanhado de socos no colchão, de músculos enrijecidos, suor e lágrimas.
Embora tivesse clareza que estava ali, no consultório, amparado pela terapeuta, imagens de algo que acontecera há muitos séculos atrás, começaram a se constituir em sua mente. Alma tinha chegado ao consultório já em situação de regresso a memórias condensadas, que insistiam em persegui-lo.
Seus fantasmas de vidas passadas lhe perturbavam o presente. Era o momento de enfrentar. Estava munido com os recursos físicos e espirituais que poderiam ser úteis.
Banhado de suor, como se realmente estivesse entrado debaixo de um chuveiro, relatava as cenas que sua memória parecia expurgar.
Via a carruagem policial, as crianças deixadas para trás, os sentimentos de resignação, choque, ódio; que a cada momento lhe tomavam conta, até visualizar a cena final, daquela vida, quando desencarnou.
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Deitada em algo que parecia uma cama de pedra, acorrentada, e iluminada por tochas que eram postas nas paredes, vislumbrava entre alucinações e realidade a figura do seu torturador.
Como um animal, sem qualquer perspectiva humana, apenas a dor lascerante dos ossos quebrados e das deformações calosas em mãos e pés, sem forças para mover-se, ou mesmo gritar, tinha alguns minutos diários do que lhe parecia afeto, quando o mesmo homem que lhe torturava durante o dia, vinha-lhe à noite, oferecer carinho enquanto a abusava sexualmente.
Carinho, que se concretizava por um toque, mínimo, misturado entre feições de nojo e desejo. Mas, um toque, que pelo menos naquele momento não lhe causava dor.
-Como pode doutora?
Exclamava alma aos prantos, sem compreender o que se passara.
-Alguém que lhe tortura durante o dia, ainda lhe estupra, à noite. E, você, ali, desgraçada de toda a sua humanidade, descobre nas atitudes de um monstro torturador, algo que chega mais próximo ao apelo que sua carência necessita. Uma esmola de afeto, representada pelo estupro diário, daquele que lhe quebra em pancadas. Como pode um ser? Um hu-ma-no passar por isso? Nem bicho!
As lembranças continuavam e Alma via-se no lugar daquela mulher, esvaindo suas últimas energias, sobre aquela pedra, que chamavam de cama.
Olhando para o lado, vê aquele homem, sentado em uma cadeira, orando por sua alma, apresentava uma fisionomia indecifrável, deixando que uma lágrima caísse.
Alma, praticamente sem forças, ouve a intervenção de Olga, sua terapeuta:
-Você consegue identificar essa pessoa na figura de alguém, hoje em dia?
- Não, não consigo. Não consigo ver-lhe em qualquer rosto.
A doutora retoma: -O que você aprendeu com isso?
-Sou um pedaço de carne imprestável, disse Alma.
Outra intervenção: - o que você aprendeu positivamente com isso?
E, então, Alma, retomando vagarosamente a postura no tempo presente, responde: -Ele me amava. Mas, cumpria com o seu trabalho. Ele precisava fazer e não tinha escolha.
E Olga rebateu: - Então, em outras palavras: "eu entendo que algumas pessoas assumem determinadas atitudes devido às circunstâncias. Compreendendo isso, eu perdoo, mesmo que essas atitudes me façam mal”. -Repita comigo.
Abrindo os olhos, com uma imensa sensação de alívio, banhado de suor e lágrimas, Alma repete, como um mantra que certamente lhe mudou a vida: - eu entendo que algumas pessoas assumem determinadas atitudes devido às circunstâncias. Compreendendo isso, eu perdoo, mesmo que essas atitudes me façam mal.
Extremamente agradecido, um pouco envergonhado de sair naquele estado, todo descabelado, parecendo que se tinha urinado, de tanto suor, Alma vai embora.
Uma imensa sensação de felicidade lhe toma conta de todo o ser. Uma felicidade que vem do espírito aliviado. Uma felicidade que está longe de ser aquela, completa, oferecida no paraíso, mas como uma faísca de luz, parecia um infinito.
-Realmente, o paraíso é um estado de consciência! Pensava Alma, consigo.
Ao iniciar a viagem de volta para casa, quando manobrava o carro, Alma recobrava a última imagem da regressão que lhe acometera ainda há instantes. A lembrança da face do torturador. Finalmente, Alma o reconhecia resignado, como alguém que lhe é muito próximo, nos tempos atuais.
Alma o reconhecia na figura de seu pai, da atual encarnação. Um homem que sempre lhe tratou com os mimos mais preciosos e a natureza mais gentil e amável do mundo, mas de quem o nosso personagem parecia sempre esperar algo de mal, como se desejasse, sem qualquer fundamento aparente, que ele caísse em deslize.
É incrível o significado Divino da família terrena e a importância de nos esquecermos do passado na grande parte das vezes. Alma precisava daquela revelação para tornar profundo o amor que devotava por seu pai, ainda, apenas no plano do respeito.
Aquele mantra lhe acompanharia em todos os momentos de sua vida. Um mantra de resignação, de afeto e de perdão.
Alma buscou refletir sobre o acontecido e foi atrás de textos que pudessem lhe amparar na resolução das dúvidas crescentes sobre o que se passou. Sabia que se tratava de uma imensa catarse que lhe trouxera paz espiritual. Mas, quais as suas bases?
Encontrou nos trabalhos do psiquiatra Dr. Yan Stevenson, a descrição de mais de 600 casos de pessoas que manifestavam lembranças que sugeriam reencarnação. Crianças que se diziam pais dos seus pais, que sabiam nomes de animais domésticos e apelidos que os próprios pais nunca lhes teriam contado. Lembranças geralmente acompanhadas de marcas de nascença em pontos relacionados com aqueles do tipo do desencarno recente. Pesquisas de cunho científico, que remetiam a reflexões profundas.
Um dos argumentos do Dr. Stevenson, que foi profundo para Alma, tinha haver com a própria concepção de memória. Ele questiona, em palavras parecidas com essas:
-o que nos faz ter a certeza de passamos há poucos minutos por uma rua determinada, ou que no dia anterior conversamos com alguém, senão as lembranças? Então, porque não aceitarmos que as lembranças que manifestamos sobre acontecimentos de séculos atrás são consideráveis?
Como é abençoado o véu do esquecimento. Através dele o Deus nos permite reencarnar junto daqueles que foram nossas vítimas ou algozes de outrora.
Se, a família espiritual é recheada de espíritos afins, que se buscam e se amam, ajudando-se incessantemente. Na carnal, nem sempre estamos com os nossos entes espiritualmente mais queridos. No entanto, trata-se da mais bela chance de perdoarmos e sermos perdoados.
Há dores que ficam condensadas em nosso espírito. Muitas vezes, durante séculos e séculos, as mágoas se perpetuam. Em algum momento, precisam ser acessadas nos arquivos da memória, para somente assim, gerarem libertação. Uma libertação que fortalece o indivíduo ao perdão, que amplia as possibilidades da vida criativa e faz crescer.
Alma sou eu.
Reencarnado em missão de prova junto ao meu pai da atual existência, antigo torturador que nesta vida se mostra renovado, mas que teria uma enorme chance de me rejeitar por eu ser um espírito de forte energia feminina em corpo masculino (transgenero).
Meu Pai, que tem superado brilhantemente sua prova, e eu, que tenho conseguido com grande poder de reflexão ocasionado por minha condição compreender os mais profundos meandros de minha natureza sexual, buscamos elementos para a elaboração da cura de nossas falhas morais no respeito mútuo dentro da mesma família nesta existência.
Como são lindos os caminhos preparados pelo Pai altíssimo! Sejamos gratos a todo o momento pelas possibilidades de crescimento que esta escola chamada planeta Terra tem nos proporcionado à luz dos ensinamentos de Jesus.