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terça-feira, 6 de agosto de 2013

REENCARNAÇÃO E DESPERTAR: POR UMA CONSCIENCIA DE ETERNIDADE (PARTE I)

Era o ano de 2007, Alma acordou tarde, umas 10 horas da manhã. Estava na casa dos seus pais onde dormia no quarto da frente. Esse cômodo recebia a luz do poste público à noite e, também o sol da manhã. Era o quarto mais iluminado da casa. Nosso protagonista, que tinha tanto medo do escuro, sentia-se confortado por dormir lá.
Ao fundo, ele escutava os hinos da igreja evangélica vizinha, Adventista do Sétimo dia. Lindos cânticos! Muita afinação e volume sóbrio. Era sempre um prazer acordar com aquela alegria aos sábados de louvor a Deus.
Tenho ouvido de uma terra linda, encantada
De um lugar onde a felicidade é total
Os meus olhos já divisam, não tão distante
Meus ouvidos já escutam sons divinais
Tão cansado estou da vida aqui deste lado
E meus braços quase já não podem remar
Calejados e feridos por tantos dias
Querem bálsamo naquele porto encontrar

(Coro)
Além do rio existe um lugar pra mim
Além do rio existe Paz
Além do rio a vida não terá mais fim
Com o meu Jesus irei morar

Tenho já sonhado com aquelas moradas
Que olho algum, aqui não viu, e nunca verá
Tem beleza incapaz de ser comparada
Pois a glória do Senhor presente está
Muito mais bonito que o Sol no poente
Ou a gota d'água em prisma, como cristal
É o encontro de irmãos de fé redimidos
Compensou viver, lutar, vencer afinal!

(Coro)
Além do rio existe um lugar pra mim
Além do rio existe Paz
Além do rio a vida não terá mais fim
Com o meu Jesus irei morar
(Além do Rio - composição Jader Dornele Santos)
A tia paterna de Alma, Rita, e sua filha, Lucilene, estavam na varanda em uma animada conversa com os pais do nosso amigo dorminhoco.
Era uma contenda típica daquelas frequentemente travadas pelos descendentes de europeus, tidos de sangue quente, reunidos naquela família. Emanoel, neto de espanhóis, da região de Múrcia e Célia, filha de uma italiana forte de olho azul, traziam para a criação de Alma e Angela, seus filhos, um misto de cultura europeia e costumes locais.
No diálogo, travado por descendentes dessa cultura, quatro indivíduos são capazes de fazer uma verdadeira algazarra, sentados uns de frente para os outros. Quatro pessoas poderiam estabelecer conversas cruzadas e diferentes, ao mesmo tempo, com muita intensidade sonora. Gritavam mesmo! Sempre com muita ênfase e teimosia; quase dando a entender, aos desavisados, que se tratava de uma briga, dado ao calor dos argumentos.
Apesar de gostar de falar muito, Alma sempre foi de falar baixo e evitar qualquer embate. Ainda deitado na cama, pensou:
- Eu não devo pertencer a esta família. Acho que reencarnei aqui por acaso ou talvez seja adotivo, como minha irmã.
Antes mesmo de conseguir concluir esse raciocínio, foi tomado por outro pensamento, muito forte. Sem entender do que se tratava aquilo, pensou em terceira pessoa, uma sensação que parecia mais um pequeno choque elétrico que lhe tomava a consciência:
- Você é a vó Carmem.
Alma achou estranho aquilo, depois entendeu que foi a mensagem mediúnica mais clara que lhe havia sido emitida, até então.
A vó Carmen havia desencarnado dezessete anos antes do nascimento dele, justamente no ano em que os pais de Alma casaram-se. Precisamente, ela desencarnou na mesma semana do casamento dos pais de Alma. Ele nunca a conheceu. Além disso, ele pouco sabia dela, com exceção de uma pequena foto que ficava exposta na estante da sala, em um porta-retratos minúsculo.
Por essa foto, Alma sempre se mostrou interessado. Sabia que a avó havia desencarnado com problemas neurológicos, parecidos com sintomas de esquizofrenia. Era trabalhadora incansável, portadora de um coração imenso e caridoso, uma mediunidade desequilibrada e forte magnetismo. Além disso, pouco se falava sobre ela.
Ao levantar, ainda meio descabelado e com os olhos um pouco inchados devido à insônia que o havia atormentado durante a maior parte da noite, Alma foi ter com seus familiares na varanda.
Sentou-se em uma das cadeiras de fio, que estavam dispostas de modo a poderem tomar um banho de sol, enquanto avistavam o tanque de lavar roupas ao lado, onde a mãe de Alma colocava algumas mudas de roupa em molho.
O quintal, cheio de árvores, ora os reverenciava com uma sombra refrescante ora com o sol acolhedor, devido à brisa leve que soprava e abanava as folhas dos coqueiros e do ipê florido.
Ao fundo, ainda ouviam o som das canções harmônicas do coral Adventista, que na igreja vizinha, faziam louvores ao Pai Celestial.
O papo, que corria mais calmo considerando o clima de acolhida que a música evangélica gerava, rumou para as experiências da tia Rita e da prima, na reunião mediúnica do Centro Espírita que frequentavam no Estado do Paraná.
A prima Lucilene disse à mãe de Alma: 
- Ai tia, estivemos no Centro Espírita semana passada e o vô Antônio nos deixou uma linda mensagem. Ao terminar, ele disse: - um beijo e um abraço para a minha filha e a minha neta que estão aqui.
Emanoel ficou bem emocionado, ao ouvir que o pai dele estava tão bem e tinha uma missão tão importante no plano espiritual. Apesar dele e Célia serem católicos, nunca desacreditaram nas mensagens dos irmãos queridos, desencarnados.
Alma, que ouvia tudo calado, bastante incomodado, completou:
-Vocês falaram do vô, falaram do tio, que de vez em quando aparecem para deixar mensagens. Mas, nunca falam da vó. E a vó Carmen? Ela não vem ao Centro? Será que já reencarnou?
Então, por incrível que pareça, toda a espanholada ficou em silêncio. Milagre! A prima, olhando para a tia, recebeu uma assertiva com a cabeça, representando a confirmação de que poderia falar sobre esse assunto que parecia tão delicado. Era estranho todo esse silêncio ao redor da história da avó paterna.
Olhando no fundo dos olhos de Alma, com um imenso sorriso no rosto, parecendo banhada por uma luz de ternura e afeto, a prima falou:
- Nós achamos que a vó Carmen é você.
Ao mesmo tempo em que era tomado de uma imensa angústia e sufocamento, pelo choro que parecia não hesitar em vir, Alma ouviu sua mãe acrescentar:
-Você é mesmo muito parecido com a vó: calmo, quieto.
Tia Rita, com outro mais belo sorriso, falando enquanto ria, expressando toda sua terna simpatia naqueles verdes olhos que brilhavam, explicou:
-Olha, ninguém veio dizer não. Mas eu não tenho dúvidas.
-Três anos depois de seus pais adotarem sua irmã, quando faziam dezessete anos de casados, se conformaram que não teriam outro filho. No entanto, em uma destas noites de sono agitado, vi a minha mãe, que já tinha morrido, dizendo:
-Já terminei, aqui em Londrina, com vocês meninas. Agora vou ficar com seus irmãos, lá no oeste. Vou acompanhar um cavalo e despertarei com os meninos.
Suspirando, como se visse a imagem da mãe que tanto amava e que tão cedo a deixara, ainda na adolescência, tia Rita terminou:
- No dia seguinte ao sonho sua mãe ligou com uma bela notícia que nos encantou o coração. Ela anunciou a sua chegada; um filho tão esperado, que regressara a casa do mano (apelido dado a Emanoel) o caçula dos meninos.
Não aguentando mais manter a cara de paisagem que havia aprendido nas pesquisas com entrevistas, Alma saiu, sufocado pelo orgulho e pela dúvida. Lembrou-se da mensagem que havia recebido há poucos minutos. Trancou-se no banheiro onde tomou um dos banhos mais confusos da sua vida.
Chorou copiosamente e despertou uma curiosidade esfomeada sobre a espiritualidade até ali abafada pela explicação materialista que tinha construído na academia, bem como pela exclusão que sentira, dentro da igreja católica, diante da consciência de sua sexualidade diferente.
Será que recebia uma revelação sobre a sua última encarnação? Ou aquilo tudo seria apenas um enorme acaso, uma coincidência?
Pensando e chorando, Alma encontrava a calma. Um ritual que, embora inconsciente, nada mais era que um belo ato de oração. Um diálogo com o Cristo que existia no coração daquele rapaz. Mediado pela tranquilidade da água morna que lhe auxiliava a concentração.
-Na Bíblia, diversas passagens atestam pela possibilidade da reencarnação. Por exemplo, quando Jesus dizia: “-Na casa do meu Pai há muitas moradas. Ou, para alcançar o reino dos céus tens que nascer de novo”.
-Não estaria Jesus falando dos diferentes planos espirituais e planetas habitados por espíritos de diferentes necessidades e níveis de desenvolvimento? Como poderíamos nascer de novo, se não fosse pela luz da nova oportunidade do espírito encontrar um novo corpo?
-A ciência mostra que uma vez decomposto, o organismo tem seus átomos distribuídos novamente na constituição de outros seres materiais. É impossível que a ressurreição, como classicamente seja pensada, realmente acontecesse. Não dá para voltar com o mesmo corpo.
-A explicação mais lógica é que ao nascer de novo, nascemos em um novo corpo, para aprendermos sob um novo ponto de vista, ocupando uma posição que nos amplie os horizontes sobre as relações de afeto que devemos construir como filhos de Deus.
-Talvez, a passagem mais importante dessa condição seja a clara revelação de que João Batista era a reencarnação de Elias. 
Esbaforido, Alma se enrola na toalha e corre ao quarto, procurando a bíblia que sua mãe sempre deixava no criado mudo, ao lado da cabeceira da cama. Então leu:
Seus discípulos então o interrogaram desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” – Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem”. – Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara. (S. Mateus, 17:10 a 13; S. Marcos, 9:11 a 13) .
Alma, metido à cientista cético, fazendo mestrado, reconheceu o óbvio. A reencarnação era um fato claramente apresentado no evangelho. O próprio Jesus teria apontado que João Batista era a reencarnação de Elias. Um último choro lhe trouxe a paz que precisava. Era sim, uma retomada à religiosidade a partir de uma fé raciocinada, baseada em vozes do seu cotidiano. Deus falava através daquelas pessoas. As falas dos familiares não poderiam ser mera coincidência, quando relacionadas à intuição que lhe ocorrera. Naquele dia, sua fé voltava aquecer lhe o peito.
No entanto, algo ainda o intrigava. Por que voltar justamente naquela mesma família? Por que Emanoel teria sido filho e agora era seu pai?

sábado, 2 de março de 2013

Ciência e Espiritismo: a exposição de Alma


Era final de 2013, luzes de natal espalhavam-se discretamente pela cidade de Aracaju, no Brasil. Os pais e as sobrinhas de Alma estavam hospedados em sua casa. Uma situação difícil, porque Alma estava casado com Roberto há seis meses. Ambos não estavam muito seguros sobre sua condição e muito menos de como conseguiriam lidar com a situação das visitas familiares. Como todos reagiriam?
Ao mesmo tempo nosso personagem fechava mais um ciclo de estudos espíritas. Após quatro meses de reflexões diárias, sempre nos mesmos horários, sem falhar, havia terminado o estudo do livro “A Gênese”.
Todas as noites, às 22 horas, sentava-se à mesa e fazia a leitura, em voz alta, de um trecho desse livro tão esclarecedor. Anotava suas impressões e resgatava na gama de questionamentos que lhe cobria o espírito, elementos que se encaixavam e auxiliavam no entendimento do aporte lido. Era-lhe um bálsamo colocar em ordem suas inquietações investigativas, parte integrante de sua natureza espiritual.
Enquanto alguns pagavam por sentirem-se tímidos e calados, por vezes Alma se martirizava por não conseguir se calar, até que fizesse um questionamento ou que pedisse um esclarecimento, seja onde estivesse. Um impulso lhe acometia e antes mesmo de avaliar as possíveis consequências de sua questão - ela emergia, transformando aquela imensa angústia em satisfação; ao mesmo tempo em apreensão, posto que nem sempre os questionamentos parecessem bem vindos.
Esse turbilhão de inquietações sempre apareceu durante as atividades do Estudo Sistemático do Espiritismo, o ESDE, no Centro Espírita Paz e Bem. Em uma dessas discussões Alma foi envolvido pelo acolhimento de um dos monitores, que sempre lhe pareceu um líder nato, apesar da pouca idade. Nesse acolhimento, o irmão Alexandre lhe disse:

-Alma, você que sempre discute as questões da ciência, por que não prepara uma exposição para um seminário que teremos entre os alunos do ESDE? Se ficar bom, poderemos até leva-lo à doutrinária (aquela palestra que é oferecida pelo centro espírita aos irmãos necessitados de esclarecimento e consolação, estando encarnado ou desencarnado).

Alma, que fora tomado de intensa alegria, por sentir-se valorizado apesar de ser um pouco anarquista, tentando segurar-se para não cair em uma vaidade desvairada, e lembrando-se de quando fora acolhido anos antes no Centro Espírita Ternura e Luminosidade, em Itabaiana, respondeu:

-Não tem muito tempo que aprendi a não dizer não, em qualquer trabalho espírita que me oferecessem. Tudo bem que eu esperava lavar os banheiros, limpar os salões, mas se a espiritualidade amiga sugere que eu prepare um estudo, melhor ainda, farei.

Sol ou chuva, calor ou frio, à mão ou no computador, alegre ou triste, Alma se manteve firme em sua empreitada. Sentia-se como a própria lua, tão eficiente em sua pontualidade, para refletir os raios do sol, o Deus celestial. Assim como a lua, Alma às vezes sentia-se pleno e brilhante, cheio. Mas, em outras parecia tão desmotivado e sem brilho, às vezes crescido, outras diminuído, mas sempre ali, nem que fosse para rabiscar um desenho, nas noites mais escuras. E assim, o estudo e a palestra foram concluídos.
Em fins de dezembro, naquela noite pós-natalina que antecederia em alguns dias as festas do réveillon, Alma subiu ao púlpito. O coração parecia sair-lhe pela boca diante da grande importância que aquele momento marcava em sua vida. Era o fechamento de um ciclo de sua reforma íntima, ciclo este que será relatado aqui, nestas páginas. Não terei uma preocupação em marcar a cronologia, posto que a ideia seja que as histórias se complementem em sua inteireza. Cada uma com seu início, seu drama e sua conclusão, na melhor das hipóteses, trazendo-lhe, leitor, uma vontade continuar, um pouco mais o estudo sobre os assuntos aqui abordados. Será que é assim mesmo? O que disso tudo seria real?
Aviso de antemão que aquilo que lhe parecer mais óbvio provavelmente foi inventado, mas as mirabolantes trocas energéticas com o plano espiritual em suas mínimas e delicadas relações e detalhes são verdadeiras e reais, partindo da plena consciência de uma alma reflexiva, parecida com o Alma, mas em uma essência própria, menos confiante, mais conflitante e certamente lua – crescente.
Tomado por uma força serena, mas que parecia tirar-lhe o fôlego, temeroso em não conseguir respirar, Alma pronunciou sua primeira frase como expositor espírita.
Não foi uma das melhores, mas foi espontânea:

- Agora eu sei o que acontece com os cantores do show de calouros.
-Quando anunciam seu nome e você não pode mais fugir, você anda tresloucadamente à frente de um público que espera por você e pelo seu sucesso. Isso faz com que suba uma vigorosa responsabilidade sobre seus ombros que parece lhe dizer: “é isso ou o vexame”.

“Isso”, na verdade, era a única opção. Tinha muitas cadeiras entre Alma e a porta, quase duzentas. Mesmo que corresse muito, atravessar aquele salão seria impossível antes que suas pernas paralisassem.
Naquele momento, ainda um pouco sem ar, Alma continuou:

-Mas essa sensação é extremamente vivificante, pois nos fortalece a crer cada vez mais no plano espiritual. Sem o amparo dos irmãos queridos, invisíveis à grande maioria, não tenho dúvidas, eu estaria no chão.

Ele esperava um riso, um só que fosse. Mas, seria demais para um primeiro movimento, até porque como diria Roberto com todo seu método e seriedade: - Isso não é um show de comédia.
Eu até que tive vontade de rir, no lugar dos ouvintes, mas achei que poderia pegar mal. Alma poderia pensar que eu o estava ridicularizando. Melhor o silêncio do que ouvir algo como, uma grande amiga seria capaz de dizer: - tá rindo de mim ou pra mim?
Elucubrações nossas à parte, Alma continuou:

- O título desta palestra é “Ciência e Espiritismo”. E resultou de um desafio feito pelo meu monitor do ESDE, curso onde estou há um ano. Tentarei fazer o possível, com a benção de Jesus, para que possamos refletir e crescer no desafio de fazer do estudo a cura para nossos males da alma.

Essas eram as únicas credenciais que interessavam. Um pouco mais firme, embora ainda tentasse encontrar a melhor maneira de se ligar ao microfone, Alma continuou:

-Não é difícil aceitarmos que há duas grandes forças na sociedade cujas atribuições estão bastante associadas à formação intelectual e moral do ser humano. A ciência e a religião, há séculos, têm-se relacionado como contribuintes para a formação moral e o desenvolvimento da consciência.
-Um importante contributo que tem sido dado ao aprimoramento da sociedade, na integração e diálogo desses universos de formação, começou com o nobre trabalho do irmão Allan Kardec para a criação de um método que resultou na compreensão dos fenômenos espirituais e consequentemente no espiritismo.
-Qualquer aprendiz do espiritismo, em seus primeiros passos, no Estudo Sistemático da Doutrina Espírita, sabe que há três pilares constituintes dessa revelação: o filosófico, o religioso e o científico.
-O espiritismo é uma filosofia porque desperta a reflexão orientada sobre questões existenciais da vida humana, dirigindo-nos para caminhos do desenvolvimento moral e intelectual.
-Também, é uma religião, no sentido que promove a relação dos humanos com Deus, formando uma ponte de ligação com a Divindade, através da fé raciocinada, que leva em conta o estudo constante dos textos sagrados e das produções de irmãos encarnados e desencarnados, sobre diferentes temas da prática social e da natureza e história humanas. Um grande exemplo de servidor do bem na produção de livros ditados por desencarnados foi o caridoso irmão Chico Xavier, que produziu centenas de livros.
-É uma ciência, considerando que foi criada a partir de um conjunto de inferências metodologicamente elaboradas em um processo de investigação que possibilitou evidenciar a existência dos espíritos, bem como sua atuação na vida cotidiana.
-Allan Kardec era o pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, um pedagogo discípulo de Pestalozzi, considerado o exemplo de bom senso na investigação científica. Sob A influência do método científico da época, especialmente positivista, ele buscou compreender causas a partir dos efeitos; conhecer leis que descrevem os fenômenos; deduzir consequências e buscar aplicações úteis para o conhecimento produzido a partir da observação, comparação e análise de resultados obtidos na investigação das mesas girantes e das comunicações mediúnicas na França dos anos 1850 em diante.
-Para explicar o fenômeno das mesas girantes, é importante recuarmos um pouco até uma casa considerada mal assombrada no interior dos Estados Unidos, onde viviam as irmãs metodistas cujo sobrenome era Fox.
-Essa casa apresentava estranhos barulhos de batidas nas paredes, cortinas que se balançavam sem porquê, entre outras cenas que poderiam perfeitamente encaixar-se em um filme de terror. No entanto, em um belo dia, uma delas desafiou seus próprios medos e enfrentou aquela possível entidade ali existente, que era tida como um ser maligno. A menina batia palmas e dizia algo como:
“- Te desafio, seu coisa ruim, a fazer na madeira a mesma quantidade de pancadas que faço com minhas palmas”.
-Então a entidade lhe respondia exatamente como ela queria, com os barulhos na madeira. Com o tempo a menina foi tentando criar um conjunto de códigos, de modo que determinadas quantidades de sons significariam letras e assim ela foi descobrindo pouco a pouco que aquele ser era na verdade um homem, que teria sido assassinado naquela casa. Posteriormente, inclusive, foi descoberta a ossada completa do cadáver daquele irmão, escondida na casa.
-Tratava-se de um bom homem que teria vivido ali com seus filhos e esposa, entretanto que não se desligara do plano material diante de seu apego à matéria e à dor de ter sido assassinado.
-Independente destes promissores resultados de libertação do ser vivente que lá estava desencarnado, as irmãs Fox criaram um tipo de telegrafia espiritual, com códigos que permitiam a comunicação com espíritos através de sons que eles produziam em determinados objetos.
-Esse fenômeno migrou até Paris, onde em salões de festas as pessoas se reuniam ao redor de mesas, colocando suas mãos sobre elas, e ao fazerem perguntas frívolas sobre suas vidas, o objeto respondia com barulhos dentro da proposta da telegrafia espiritual criada pelas irmãs Fox. Contudo, as respostas eram bastante complexas.
-Em um desses eventos, que tinha como expectador intrigado o professor Rivail, uma entidade que autodenominou-se espírito da verdade disse que Rivail teria uma grande missão na terra, de compilar um conjunto de conhecimentos que daria início a uma nova revelação para a humanidade.
-Rivail sentiu-se interessado pela proposta e resolveu analisar mais de perto todos aqueles fenômenos e compreender que missão poderia ser essa. No início, ainda com poucos médiuns, Rivail ou Kardec, como preferir, atuava com um instrumento chamado cesta pião.
-Essa cesta teria o formato de um coração horizontalmente alinhado sobre a mesa, que em sua ponta guardava uma caneta perpendicularmente inserida de tal sorte que dois médiuns poderiam segurar em suas abas traseiras deixando a cesta mover-se, escrevendo, sem a necessidade do movimento da mesa.
-Com o tempo eles perceberam que a cesta era desnecessária. A caneta nas mãos dos médiuns representaria as mensagens dessas novas forças comunicativas, com a mesma fidelidade. Assim começaram as psicografias.

Alma, mais tranquilo em sua fala, controlando sua respiração e segurando o microfone em suas mãos, encostava o antebraço firmemente junto ao peito, para não transparecer que ainda tremia. Olhava para alguns dos rostos da plateia e identificava olhares atentos. Assim, firmando-se melhor em sua fala e aumentando um pouco a entonação, continuou:

-Hoje sabemos que a psicografia pode ser inconsciente, quando o braço do médium se move sem que ele saiba o que está sendo escrito. Mas, também pode ser consciente: quando as palavras lhes são inspiradas ao pensamento ao mesmo tempo em que ele escreve ou mesmo quanto lhes são inspiradas ao pensamento, já organizadas em um texto coerente, muitas vezes repleto de imagens, basta ao médium descrever.
-A existência dos espíritos não era uma hipótese, mas resultou da observação dos fatos. A teoria foi construída à medida que Rivail percebia padrões e lógica nas comunicações. Por exemplo, assim como hoje ainda é comum nas reuniões mediúnicas, ele percebia espíritos, de moral menos elevada, que se mostravam perturbados. Alguns destes não sabiam que estavam desencarnados. Enquanto outros, mais amadurecidos e de alto desenvolvimento moral, mostravam-se sóbrios e conscientes de sua condição.
-Com o tempo, tomando consciência das suas próprias reencarnações, Rivail resolveu utilizar um pseudônimo, inspirado em uma vida passada, quando foi um sacerdote druida, chamado Allan Kardec.
-Sob esse novo pseudônimo, Kardec conceitua que a ciência envolve a análise de processos de revelação dos segredos da natureza e os espíritos são fenômenos naturais, que podem ser observados pela ciência a partir do intermédio dos homens e das mulheres sensíveis à sua presença – os médiuns.
-Um elemento adicional ao que se compreendia como ciência na época foi o fato de que o fenômeno espiritual fala e explica a si mesmo. Aceitando isso, Kardec inova o seu método avançando na prática da pesquisa da época. O sujeito investigado se tornava coautor de sua obra. Não é apenas olhar para o espírito, mas receber o que ele tem a oferecer.
-Entretanto, conforme podemos aprender nas palavras da Gênese de Kardec “os espíritos não ensinam senão apenas o que é necessário para guiar no caminho da verdade, mas eles se abstêm de revelar o que o homem pode descobrir por si mesmo” (Gênese, cap. 1, item 50).
-Essa é a característica da terceira revelação. Se a revelação mosaica se impunha pela força e pela coerção e a do Cristo era conselheira e pautada na persuasão, a do consolador aparece em um tempo no qual o homem está mais exigente com suas descobertas – resulta do estudo sistemático, da pesquisa e do livre exame.
"Se me amais, guardais os meus mandamentos; eu rogarei a meu pai e ele os enviará outro Consolador, afim de que fique eternamente convosco. [...] conhecê-lo-eis porque ficará convosco e estará em voz" (João 14:15-17 e 26).
-O consolador é o conhecimento sobre o caminho, a verdade e a vida. É o evangelho claro e fortalecido na fé raciocinada e no espírito do cristão investigativo. O consolador é o espiritismo como filosofia que explica aquilo que estávamos acostumados a compreender como mistérios. Trata-se do link entre a Terra e o “céu”, o saber sobre os espíritos, construído com eles.
-A partir dos primeiros trabalhos de Kardec, os assuntos do espiritismo foram se distribuindo em vários locais de acordo com as afinidades dos médiuns. Havia uma multidão de médiuns intermediários, aqueles que afinavam com a ciência expressavam as comunicações relacionadas a ela, outros estavam sintonizados com as artes, outros com a moral e assim por diante.
-Nesse processo de comunicação com a espiritualidade, nosso cientista Kardec descobriu algumas premissas. São elas:
-Os espíritos só ensinam o que sabem;
-Há informações que não lhes é permitido revelar – os números da loteria, por exemplo, impossível.
-Sobre isso meu pai costuma contar uma piada que eu aclamo como uma das melhores de todos os tempos: -Um médium vidente teria recebido uma mensagem de um espírito que teria lhe dado os números do jogo do bicho. Ele apostou e ganhou muito dinheiro. Na noite seguinte ele recebeu a visita de outro espírito que lhe disse para apostar o dobro em outros números. Ele, como era muito fiel à sua mediunidade, apostou sem pestanejar. Fiel à ambição, também; não podemos duvidar. Entretanto, quando sai o resultado, ele descobre que tinha perdido tudo. Moral da estória: na primeira noite foi a mãe dele quem veio avisar os números; na segunda, foi a mãe do bicheiro.
-Eles evoluem, vão se despindo de preconceitos humanos, adotando visões mais elevadas;
-Compare, por exemplo, as discussões de Joanna de Angelis sobre os relacionamentos afetivos no início de sua obra, com as análises contemporâneas.
-Alguns ensinam errado por pura diversão: os famosos zombeteiros, que manipulam e constrangem porque não tem muita coisa melhor para fazer;
-No entanto, só eles, os espíritos de uma maneira geral, é que poderiam nos falar das coisas do além-túmulo.
-Diante dessas premissas, na construção do Pentateuco, houve um trabalho intenso de compilar dados, comparar e estudar analogias e diferenças, apreciar o grau de confiança das comunicações a partir da prova da lógica e da razão, distinguir entre ideias locais e outras sistemáticas generalizadas, afastar ideias desmentidas pela ciência e formular um todo coerente, homogêneo.
-A comunicação só era aceita depois que passasse pelo crivo da comprovação. As científicas eram postas à lógica da ciência da época. Um exemplo são as considerações sobre a lua, que foram psicografadas pelo cientista Camile Flamarion a partir da comunicação de Galileu, apresentadas na Gênese. Se comparadas com os estudos atuais, parecem extremamente amadoras e infantis, mas estavam muito próximas do escopo astronômico da época.
-Mesmo assim, ao acrescentar esse comentário do espírito de Galileu na Gênese, o bom senso de Kardec enfatizou suas possíveis limitações, dando-lhe o caráter de hipótese.
-Essa estreita relação do espiritismo com a ciência tem-lhe garantido uma vitalidade da qual outras religiões conservadoras estão longe de gozar. Nas palavras da Gênese (cap. I, item 55) o “espiritismo, marchando com o progresso, jamais será ultrapassado porque, se novas descobertas demonstrassem estar em erro sobre certo ponto, ele se modificaria sobre esse ponto; se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará”.
-O espiritismo é um novo paradigma na construção do conhecimento e de valores sociais que se adequa ao vislumbre da santidade humana e sua aproximação, ainda inicial, da real constituição da Divindade, através da integração entre os passos rumo à melhoria da razão e da moral. Suas bases filosófica, científica e religiosa, são estímulos para que tenhamos o estudo e a curiosidade como importantes instrumentos de fortalecimento da fé.
-Não poderíamos deixar de aportar que os processos históricos de instituição da ciência e da religião, que durante muitos anos as concebeu como forças dissociadas, necessita de um profundo trabalho reflexivo para que nenhuma domine e desvirtue o significado da outra.
-Muitas vezes, no afã de despertarmos argumentos que revelem as verdadeiras forças da espiritualidade tendemos a usar da ciência, por motivo pouco reflexivo, na busca de provas que por vezes chamamos de irrefutáveis para “comprovarmos” a existência do mundo espiritual.
-Esquecemos que intuitivamente este sentimento de eternidade já é parte da nossa constituição humana. Não precisamos prova-la, seja para nós ou para qualquer outro.
-Mas, sabemos que a ciência pode sim, ser um importante instrumento de libertação das consciências orientando os estudos e reflexões que favorecem a evolução da humanidade através das gerações.
-Portanto, assim como a ciência, o espiritismo é uma teoria progressiva que se ampara em fatos e considerações anteriores para crescer; só estabelece o que está demonstrado por evidência ou que ressalta logicamente da observação; nunca estará pronto e acabado, considerando que está em constante evolução conforme evolui a sociedade dos encarnados e dos espíritos.
-O espiritismo não contradiz o materialismo [cientifico], mas o provoca. Caminha à par dele, mas onde o materialismo se detém, o Espiritismo prossegue. (Gênese, Cap. X, item 30).
-A gênese apresenta um amplo senso crítico ao espiritismo, inaugurando uma nova fase, onde importa muito mais o estudo sistemático do que o simples ouvir – precisamos criar oportunidades de estudo dentro dos centros e nas famílias.

Partindo para as considerações finais, Alma diminuiu a velocidade das suas palavras, dando um tom leve e lento, reflexivo e doce:

-Quando eu estou trabalhando no passe, uma atividade que recentemente iniciei aqui neste centro, eu imagino o poço da Samaria, onde Jesus está recostado, sentado no chão. Então, em pensamento, coloco o irmão que vai receber o atendimento com a cabeça no colo de Jesus, para escutá-lo e receber seu afago.
-Porque ali, naquele lugar, Jesus falara para a samaritana sobre a educação que cura.
-Eis a água que sacia a sede e que nos faz fonte viva: o conhecimento. Bom estudo a todos e a todas.

Ao concluir sua fala esse expositor não duvidava que muitos ali conectaram-se com a espiritualidade amiga, fortalecendo-se para o estudo edificante e cristão. Alma retirou-se em silêncio, para fora da sala, onde aguardou seus pais que tomariam o passe antes de encontrarem-se com ele.
No anonimato, de quem estava em um canto da parede afastado dos demais, quieto e agradecido, Alma ouviu um rapaz tímido perguntar junto ao recepcionista do centro:

-Como posso me inscrever para o ESDE?

"Trombetas tocaram nos céus". Alma regozijou-se em Jesus e no seu íntimo fez um fervoroso agradecimento ao Pai celestial pela oportunidade de ter participado do trabalho que ajudou àquele irmão, mesmo que aparentemente fosse apenas um, dentre os duzentos que ali estavam. Nosso aspirante à expositor sentiu uma das maiores alegrias que o ser humano pode experimentar na experiência terrena – ser útil à Jesus.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Um parêntese: "Agora eu sei" - SOBRE HUMILDADE E CONHECIMENTO


Agora Eu Sei
Quanto tempo de sonho perdido
Quanto tempo esquecido
É melhor nem lembrar
Eu pensei que entendia de tudo
Que sabia de tudo
Mas vivia no ar
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
Dos conselhos que às vezes ouvia
Eu sempre fugia
Não queria entender
E num mundo de sonho andava
E só acreditava em mim
E em você
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
E hoje meu caminho é incerto
O meu mundo é deserto
Eu não vivo porque
Eu pensei que entendia de tudo
Que sabia de tudo
Mas não sei de você
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
Mas agora eu sei
O que aconteceu
Quem sabe menos das coisas
Sabe muito mais que eu
Fonte: letras.mus.br
PARA REFLETIR SOBRE O CONHECIMENTO E A HUMILDADE

sábado, 16 de fevereiro de 2013

ALMA: Primeiras palavras


Nestas páginas, apresentamos Alma. Um personagem que se manifesta em minha própria biografia, constituído de uma história própria, que também comporta outras, contadas por terceiros, com as quais me identifiquei. Elas mostram personagens da vida real, observados no dia a dia, que são aquilo que eu gostaria de ter sido ou que até fui e que estão em mim.
Parte desta realidade foi resgatada da minha memória, outra ouvida, mas por incrível que pareça em uma história que trata de ciência e religião, filosofia e autoconhecimento, tento compreender o que é a magia. Uma magia que não se encontra em poções, livros mágicos ou em palavras de encantamento. Mas, uma magia circunscrita na realidade terrestre daqueles que evoluem no exato ponto onde o céu e a terra se ligam – a alma humana.
O texto talvez nunca seja terminado, mas suas histórias, sim. À medida que sirvam de exemplo experimentado, mesmo que apenas na imaginação daqueles que se identificarem com o que é relatado aqui, nestas poucas linhas que tratam da magia do viver, da constituição das almas, os espíritos encarnados neste planeta de meu Deus.
Não sei se é um romance psicografado, mas certamente é dialogado com espíritos e espirituosos, encarnados e desencarnados, alguns perfeitos e outros meio desavergonhados, que buscam despertar das mazelas e masmorras, a sensibilidade e a justiça, o amor e o compromisso com o bem em humana história de quem quer formar-se homem, mesmo sendo homossexual.
Alma é gay! Via-se desamparado e sem referenciais. Desiludiu-se e transformou-se à medida que percebeu sua missão de caridade nesse mundo – fazer o bem sem demagogia, sem vergonha e sem descanso. Alma é caridoso, é inteligente e se esforçou arduamente para descobrir sua própria magia – A DE ILUMINAR (-SE) ATRAVÉS DE UMA DOCE REVELAÇÃO – O CONHECIMENTO.