Era
quinta-feira à tarde, na angústia pelo fechamento de uma prestação de contas de
um projeto de pesquisa, que me desesperava, eu não conseguia parar com o que
fazia para pensar na palestra que precisaria ser dada no dia seguinte, durante
o evento da Sociedade Médica Espírita de Sergipe.
Estava
isolado em casa durante toda a semana trabalhando nesse relatório que me consumia
as forças. Estava em jogo muito mais o aspecto emocional que isso denotava do
que o fluxo de trabalho em si. Havia mais energia de ansiedade do que trabalho
duro no processo. Isso tudo devido à minha pouca maturidade na administração de
recursos públicos. O medo de que algo desse errado oprimia-me o coração. Eram
muitos documentos e detalhes a considerar.
Meditei
várias vezes naquele dia, desde as 5:30 da manhã. Sempre que minha mente se
mostrava confusa e minha alma oprimida, parava o trabalho. Após uma breve
prece, me colocava a buscar uma conexão com o presente, reformando-me para
longe das angústias e dores geradas por mim mesmo.
Senti
a presença de entidades trabalhadoras do bem, ajudando-me na resolução das
contas. Emocionado, agradeci ao Pai,
reconhecendo minha insignificância pessoal diante da tarefa. Eu era apenas um
instrumento encarnado que servia de veículo para que espíritos mais nobres
auxiliassem no desenvolvimento da ciência em meu país.
No
dia seguinte, quase que vinte e quatro horas depois, eu deveria fazer uma
apresentação a um grupo de estudiosos da doutrina espírita, na cidade de
Aracaju. Um grupo sério e preparado de espíritas que buscavam compreender e
gerir suas atividades profissionais conectando-as com o trabalho confortante do
espiritismo.
Mesmo
que a contragosto, eu estava atrasado para a preparação da palestra, então
parei o trabalho, que enlouquecidamente me dedicava a terminar, tomando-me por
uma outra angústia, o pouquíssimo tempo para pensar em uma fala sobre tema tão
delicado: O Papel da Educação na Cura da Obsessão Espiritual.
Mais
uma vez, coloquei-me sentado, de pernas cruzadas, coluna ereta, com o foco de
atenção na respiração: precisava Meditar. No cantinho que preparei com um
tecido ao chão e almofadas, concentrei-me na conexão com o universo e com o
Deus de amor que em mim habita, assim como em qualquer outro ser humano.
Depois
de quase 30 minutos uma mensagem foi despertada nos recônditos do meu
inconsciente, remetida pela parte de mim que representava a consciência do meu
plano reencarnatório: -Não tem o que temer, querido irmão. És tu, um
instrumento escolhido por Deus para divulgação dos ensinamentos do mundo
espiritual. Através de ti o Cristo se manifestará. São dele as palavras
pronunciadas e as linhas escritas. Cabe a ti, apenas, a disposição para
transcrevê-las, além de se mostrar presente nas atividades instrutivas que teus
mentores preparam caridosamente para o teu desenvolvimento. Essa preparação, dada
pelos cursos, palestras e durante suas leituras, lhe confere conteúdo
necessário à utilização dos mentores enviados por Jesus, que proferem
ensinamentos em nome do Pai amoroso.
Depois
de tal inspiração, levantei-me ainda angustiado, como se eu devesse expressar
de dentro de mim uma intensa energia de amor, que ali fora depositada.
Sentei-me e escrevi, em 20 minutos, o texto que posteriormente foi organizado
em slides para a apresentação ao público espírita.
Cenas
com informações provenientes de lembranças sobre cursos e leituras vinham à
minha mente quase como um balé. Memórias auditivas e visuais, falas e conceitos
que amparavam a temática a ser ensinada, em uma lógica sequencial
impressionantemente clara; em alguns momentos até assustadora aos meus olhos,
posto a inovação com que os temas eram tratados. Surgiam à minha mente e iam
embora à medida em que eram escritas por minhas mãos.
Posteriormente
descobri que se tratava do fenômeno mediúnico da captação da oratória
descritiva, tão bem descrita pelo espírito Camilo em "Memórias de um
Suicida". Produzida pelos mentores, que me transmitiam como em uma sequência
de slides, minhas próprias lembranças, organizando em mim algumas informações
de maneira sequencial, quase que renovando todo o conhecimento que eu trazia
sobre o assunto, colocando-o em novos prismas.
Eu
me recusava a acreditar nas relações temáticas propostas, duvidava e ria,
amorosamente, do brilhantismo com o qual eu recebia aquela aula que mais tarde
deveria retransmitir. Não tenho dúvidas que estive longe de expressar toda a
clareza da obra Divina que ali desfilava aos meus olhos, a partir de lembranças
despertas em minha mente.
Em
lágrimas, terminei o texto, respirei e me coloquei a preparar a apresentação.
Mais uma vez estive atento à lógica da estrutura textual e, avaliando
positivamente o que fora expresso, coloquei-me a ajeitar detalhes da digitação
e a organização dos slides, que por orientação dos mentores deveriam ser o mais
simples possível, com fundo branco e letras pretas, de tamanho bem grande.
As
questões norteadoras foram-me apresentadas ao final para que minha confiança na
mensagem fosse testada, inclusive minha atenção à lógica e à possível
veracidade daquilo que eu escrevia.
Fui
duvidando do texto, até que, como chave de ouro, as questões foram propostas e
fecharam o que estava escrito: 1) qual a relação entre educação e obsessão no
desenvolvimento do espírito? 2) qual educação cura a obsessão?
Faltou-me
coragem para, no momento da apresentação, explicitar a responsabilidade dos
espíritos na construção daquele trabalho, talvez por minha inexperiência no
campo mediúnico; ou mesmo pelo orgulho e pela vaidade de alguém que temia
passar por ridículo. De qualquer forma, com uma pontinha de insegurança, que
começou a me fazer refletir sobre um nervosismo iminente, iniciei a palestra.
Antes mesmo que esse nervosismo viesse a me atrapalhar, uma mensagem novamente
me foi desperta na consciência: "-lembre-se, você é um instrumento do
Cristo e as pessoas merecem essas informações, mesmo que as critiquem e, por
ventura, refutem; elas servirão para importantes reflexões".
Portanto,
as considerações iniciaram-se a partir das questões propostas e seguidamente
uma breve introdução foi apresentada, com ela, toda a discussão previamente
preparada em um texto de 10 laudas, que foi construído durante 20 minutos. Esse
texto foi reorganizado e encaminhado para uma publicação na revista da
Sociedade Médico-Espírita. Uma versão um pouco mais detalhada foi apresentada
nos parágrafos seguintes:
Nesta
fala buscamos, em primeiro lugar, definir as obsessões e suas tipologias; em
segundo, trazemos a noção de “ação persistente do espírito obsessor”, sob o
prisma da Programação Neolinguística, através da compreensão do conceito de rapport. Por fim, apresentamos um
argumento sobre o rapport entre os
espíritos envolvidos no processo obsessivo como possibilidade de elucidação de
sombras psicológicas.
A obsessão: conceito e tipologias
Na questão 459 do Livro dos
Espíritos, eles dizem que o plano espiritual pode nos influenciar a ponto de
nos dirigir (KARDEC, 2011a). Nessa passagem, podemos interpretar que não se
discute sobre a qualidade da influência de um espírito sobre outro, se para o
bem ou para o mal, mas que todo o empreendimento humano sobre a terra receberá
assistência espiritual; seja em ações positivas, para o desenvolvimento da humanidade,
com sugestões e apoio dos espíritos superiores; ou mesmo, em atividades de
menor nobreza, que estarão sob a ação de espíritos ainda ingênuos e malfazejos.
No livro “O Evangelho Segundo o
Espiritismo” (KARDEC, 2011b), há uma definição sobre Obsessão Espiritual.
Segundo ele, a obsessão
é a ação persistente que um espírito mal exerce sobre um
indivíduo. Apresenta caracteres muito diversos, desde a simples influência
moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo
e das faculdades mentais. (KARDEC, 2011, Cap. 25,
Item 81).
Na tentativa de compreendermos os tipos de obsessão,
podemos classificá-las de três maneiras:
1. Conforme a relação estabelecida entre os espíritos
envolvidos, podem ser:
·
De desencarnado
para desencarnado: quando um espírito escraviza outro, hipnotizando-o e
controlando suas ações;
·
De desencarnado
para encarnado: quando somos influenciados persistentemente pelos espíritos ao
nosso redor;
·
De encarnado
para desencarnado: quando exercemos influência sobre aqueles que desencarnaram por força magnética gerada, por exemplo, por pensamentos de posse. Às vezes prendemos junto a nós os entes
queridos que desencarnam. Isso ocorre devido a energia magnética que
desprendemos egoisticamente, justificando dor, na ação de
chorarmos e sofrermos desvairadamente por aqueles que desencarnaram: a) -Meu
Deus! Por que levastes fulano? Ah! Minha vida não tem mais sentido. b) -O que
será de mim, fulana, sem você? O que será de nossos filhos? Não me abandone!
·
Auto-obsessão: quando o indivíduo cria
comportamentos e assume determinadas posturas corporais que limitam suas ações,
gerando auto-sabotagem e até mesmo doenças, por conta de culpas pretéritas ou
mesmo na tentativa de conseguir atenção daqueles que estão ao seu redor. Há um
foco intenso na busca por alimentar o corpo de dor ou o eu inferior.
Geralmente, com o tempo, o indivíduo recebe outros espíritos que vibram em
conexão com esses comportamentos, contribuindo para o agravamento do quadro;
· Ovóide:
quando espíritos desencarnados estão muito apegados a ideias fixas, por
exemplo, de vingança, culpa ou mesmo vinculadas à prazeres compulsivos, como
práticas sexuais e dependência a drogas, seus membros periespirituais se
atrofiam de maneira que a única parte proeminente do corpo espiritual será o
corpo mental, dando ao ser o formato oval;
· Zooantropia:
o indivíduo desencarnado recebe estímulo para a hiperprojeção de instintos
animalizados, por força de hipnose, produzida por espíritos que o escravizam,
de maneira que assumem formato de animais. O mais clássico é o obsedado assumir
o comportamento de lobos (licantropia), contudo, Pinheiro (2013) mostra
indivíduos que assumem formato de aracnídeos, serpentes, ratos e morcegos, no
caso de obsessões sexuais.
2. Conforme a intensidade do controle
exercido
· Simples: quando há uma influência leve
de um indivíduo sobre a outra pessoa. Sugestões para que a outra pessoa faça
determinadas coisas, como por exemplo: beber, fumar, ser infiel, ou assuma
determinados estados psicológicos como de raiva, tristeza etc.
· Fascinação: quando o obsessor age
sobre a vaidade do obsidiado. Lhe sugere poderes, forças, ações e depois o
coloca em situações nas quais é ridicularizado. É o caso de médiuns que, por
exemplo, acreditam emitir mensagens diretamente do próprio Jesus Cristo. Esses
podem estar em processo de fascinação, até porque, provavelmente, Jesus não
revelaria sua identidade em uma psicografia, diante de sua humildade, caso
acontecesse, posto à improvável possibilidade de espíritos tão densos como nós,
termos acesso de comunicação com um espírito puro.
· Subjugação: quando o espírito obsessor
tem total controle das ações daquele que a sofre.
3.
Conforme o motivo da influência exercida,
o espírito obsessor pode ser:
· Consciente
do mal que causa: quando age por vingança, por ódio, ou mesmo por diversão,
causando inconvenientes e dor nos obsidiados;
· Inconsciente
do mal causado: quando há alguma proximidade ou admiração do espírito obsessor
pelo obsedado, de maneira que aquele não queira se desligar desse. Por exemplo,
uma mãe que desencarna e insiste em ficar na casa onde estão os filhos, sem
perceber que seu desequilíbrio energético pode afetar os indivíduos que ali
habitam[1];
· Associado
ou Simbiótico: quando ambos se beneficiam da associação ou simbiose, apesar dos
males causados. Um exemplo, pode ser encontrado no livro Sexo E Destino
psicografado por Chico Xavier, no qual obsessor e obsedado, compartilham os
fluídos do whisky bebericado pelo encarnado. Ao mesmo tempo, o espírito cuida
para que este seja protegido de acidentes, de maneira que continue servindo
como um bom “copo”, material.
As
classificações aqui apresentadas nos possibilitam melhor compreensão sobre as
formas com as quais as obsessões podem assumir papeis na vida dos indivíduos,
estando eles encarnados ou desencarnados.
Podemos
compreender, portanto, que o obsessor só consegue agir, caso encontre no
obsedado (aquele que sofre a obsessão) um ponto de ligação, uma sombra psicológica. O obsessor funciona como
um amplificador daquilo que possuímos dentro de nós, escondido em nossas
sombras. Nossa mesquinhes, nosso egoísmo, nosso orgulho, nossa soberba, nossa
culpa, etc, são plugs vulneráveis
para a conexão de obsessores. Como apresentou Schubert
(1982, p. 9) “[...] sabemos,
através dos ensinamentos da Doutrina Espírita, que a obsessão existe por
estarmos ainda eivados de sombras”.
A
sombra, construída conceitualmente por Carl Jung, perde sua força de opressão
quando integrada ao ser. Se minha sombra é a covardia, quando a integro ela perde
a força e pode se tornar cautela; se é a feminilidade, pode se tornar
sensibilidade; se o apego, pode se tornar cuidado. Ela carrega
Um determinado aspecto de cada um que destrói os
relacionamentos, mata o espírito e nos impede de realizar nossos sonhos. [...]
Contém todas as nossas facetas que tentamos esconder ou negar; os aspectos
sombrios que julgamos não serem aceitáveis para a família, para os amigos e, mais
importante, para nós mesmos. [...] Nossas sombras são detentoras da essência daquilo
que somos, guardam os nossos bens mais preciosos. [...] Os sentimentos que
abafamos estão ansiosos para se integrar a nós mesmos. Eles são prejudiciais
apenas quando reprimidos (FORD, 2013, pp. 19 – 21).
Se
por um lado o obsessor nos causa dores e sofrimento à medida que amplifica
nossas sombras, por outro, encontramos neles uma ótima oportunidade para
encará-las de frente, promovendo um processo de educação pela reforma íntima.
A Educação e a Programação
Neurolinguística do Ser
A
educação se expressa em atividades de relação. Ela pode ser formal, com um
objetivo de ensino-aprendizagem previamente pensado, conforme vivida nas
escolas. Ou, gerando aprendizados mútuos, entre humanos que interagem no dia a
dia, como acontece com a educação vivida no contexto das famílias e grupos
sociais.
Relação
é algo natural e necessário ao ser humano. Para Santo Agostinho, por exemplo, a
pessoa é uma relação. Sou uma pessoa porque sou pai, sou filho, sou irmão, sou
mãe. Cada individualidade, portanto, é um nó que agrupa os diversos processos
de relação.
Do
ponto de vista do desenvolvimento espiritual, a educação inicia-se a partir de
nossa criação, como espíritos desprovidos de discernimento. Então, caminhamos
rumo ao desenvolvimento, em busca da purificação espiritual (KARDEC, 2011a).
Nesse
processo de amplo ensino-aprendizagem do ser, corpo e mente constituem-se um
conjunto indissociável. As leituras de diversas obras espíritas e científicas nos
mostram que isso é fato tanto no plano terreno, no que se refere à
indissociação entre corpo material e a mente (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995); como
espiritual, no que se refere ao corpo perispiritual (KARDEC, 1999).
As
marcas dos sentimentos positivos e negativos ficam registradas no perispírito
do ser vivente, que está em processo de evolução. Alterações no estado mental
afetam a estrutura corpórea e alterações corpóreas afetam o estado mental,
tanto neste quanto no plano espiritual. Conforme
apresentado na Gênese espírita, “[...] O pensamento cria imagens fluídicas, e
se reflete no envoltório perispiritual como num espelho; o pensamento toma
corpo e aí se fotografa de alguma forma [...]” (KARDEC, 1999, p. 240, Cap. 14,
item 15).
Partindo
desse princípio, da indissociação entre corpo/mente/espírito, podemos
compreender, por exemplo, que uma depressão, ou qualquer outra doença, podem
ser criadas pelo indivíduo. Da mesma forma, a alegria, como possibilidade
cotidiana e de essência, pode trazer benefícios energéticos de cura e de
desenvolvimento ao corpo físico (ROBBINS, 2003; MOREIRA; CRUZ, 2013).
Dependendo
de como eu me posto ou respiro, posso alterar estados de consciência, bem como
assumir emoções e sentimentos. Da mesma forma, qualquer notícia que me cause
desequilíbrio, pode afetar imediatamente minha respiração e postura (O’CONNOR;
SEYMOUR, 1995). A respiração é uma das ferramentas mais importantes na ligação
entre estado emocional/espiritual e a aparelhagem corporal terrena. Não por
acaso, diferentes tipos de terapias meditativas milenares baseiam-se na
observação da respiração.
O
mais interessante é que indivíduos em harmonia, uns com os outros, respiram no
mesmo ritmo e profundidade. Não apenas tendem a imitar a respiração construindo
uma vibração semelhante, como também se espelham em comportamentos e posturas
corporais, em casos nos quais buscam interação (O’CONNOR; SEYMOUR, 1995).
Assim,
caminhamos para a ideia da Programação Neurolinguística de que a maior parte da
comunicação entre os seres humanos é feita pela linguagem corporal (O’CONNOR;
SEYMOUR, 1995).
Somos
tão ligados uns aos outros que nossas capacidades nos permitem sofrer juntos -
eis o significado da compaixão[2].
Quando observamos um ser humano ferido, tendemos imediatamente a manifestar
emoções dolorosas. Da mesma forma, a presença de um irmão sereno, pacífico e
harmonizado, com propósitos Divinos, nos leva a responder com um grande e
delicioso movimento de relaxamento. Essas relações estão regidas pelo rapport - uma palavra utilizada para
descrever esse estado de relação, mais ou menos profunda, entre os humanos,
promovendo-lhes estados vibracionais parecidos, em situações nas quais querem
interagir.
"-Acompanhe,
acompanhe e conduza", é o que dizia meu professor no curso Practitioner em de PNL[3],
quando tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre essa área. Se
acompanhamos os movimentos, o tom de voz e a respiração daquele que está
interagindo conosco, de maneira natural, mas consciente, temos grande chance de
estabelecermos uma ligação. À medida que a ligação emocional for efetuada,
mudando sutilmente nossa postura corporal, tom de voz e/ou respiração, nos
surpreenderemos com o espelhamento de nosso interlocutor. Ainda, em rapport, podemos inclusive propor
induções hipnóticas ao interlocutor que estará aberto a depositar em nós sua
confiança, seguindo-nos as instruções. Da mesma forma agem alguns obsessores,
através da hipnose, induzindo suas vítimas às mais torpes situações.
O rapport é uma
característica natural do ser humano e permite através da aproximação das
linguagens corporais, também a aproximação dos estados emocionais de dois ou
mais sujeitos, está registrado em nossa biologia, pelo que os cientistas chamam
de o neurônio espelho. Conforme Lameira, Gawryszewski e Pereira Jr., 2006),
trata-se de um complexo neuronal que nos permite a conexão natural, normalmente
inconsciente, uns com os outros, gerando estados vibracionais que nos vinculam.
Essa
vinculação é um dos motivos que nos fazem evoluir coletivamente, ou mesmo
estacionar coletivamente, posto que estados gerais de otimismo e pessimismo, de
serenidade e de fúria, podem ser difundidos e compartilhados. Segundo Schubert (1981) só entramos em ligação com o sentimento
alheio se em nós o mesmo estado emocional se fizer presente, em mesma sintonia
de equilíbrio ou de desequilíbrio.
Se apenas consigo expressar o que tenho dentro de
mim, só consigo oferecer ao outro aquilo que trago comigo e só recebo do outro
aquilo que para mim faz sentido, ou seja, algo que também há em mim, a isso
chamamos projeção. As projeções são importantes indicadores sobre as sombras
que possuímos. Se eu pensar sobre as coisas que mais amo e mais odeio nos
outros, vou conseguir descobrir momentos em minha história em que já apresentei
essas mesmas características. Segundo Ford (2013) um bom exercício é aceitar
essas características em mim, perguntando à uma partezinha lá dentro do meu
ser, o que de positivo cada um desses aspectos trouxe à minha vida.
Tudo
isso que viemos dizendo, de que há uma ligação entre os humanos, e que ela só
existe por sentimentos e emoções compartilhadas, significa que as perguntas e
respostas estão todas em nós, como a centelha Divina que constitui nosso ser. Imagine
que uma árvore é um ser que ainda não
acessou a energia da raiva dentro de si, portanto jamais se conectará à raiva
humana.
Quando
espiritualmente imaturos, tendemos a achar que a fonte de nossa alegria ou de
nossa tristeza está no outro. Podemos dizer, sob força do ego:
- Fulano
me machucou. Fulana só me faz raiva.
Contudo,
a pergunta deveria ser: -“o que eu tenho em mim para que essa relação me
desperte tais sentimentos e como devo direciona-los?”
Essa
clareza, de que todas as responsabilidades do meu destino estão em mim, aparece
à medida que expando a minha consciência para criar novos comportamentos,
diminuindo e até mesmo deixando de me ligar àqueles menos dignos, posto que me
mostro capaz de acolher as minhas próprias sombras com amorosidade,
integrando-as em mim, de maneira produtiva.
Pequenos passos para o
autoconhecimento
Como
se dá esse processo de expansão da consciência na relação com os espíritos?
Apresento duas opções, certamente correndo no erro de demasiada simplificação.
Pela ligação: 1) amorosa ou 2) dolorosa.
No
primeiro aspecto: nos conectamos ao
comportamento dos espíritos mais nobres, na construção de sentimentos mais
puros, sentindo-nos amados por eles e por seu testemunho de amor a todos nós.
Essa ligação se dará por ferramentas psicológicas amparadas em valores pessoais
firmes de pertença coletiva ao grupo dos filhos de um mesmo Pai.
À
medida que desenvolvemos esses valores, em determinados aspectos de nossa vida,
também somos imitados pelos nossos irmãos, mesmo ainda estando nós distantes da
purificação completa. Percebemos que não precisamos ser santos para
identificarmos em nós possibilidades libertadoras, luzes e capacidades de
desenvolvimento. Assim, focamos em nossas qualidades, ocupando-nos de
expandi-las e direciona-las cada vez melhor ao bem pessoal e, consequentemente
coletivo, posto que pessoa é relação.
No
segundo aspecto, da dor: estabelecemos parcerias através de comportamentos e
sentimentos menos dignos com cúmplices de graus de desenvolvimento tão
rudimentar quanto o nosso. Oferecemos-lhes ou aceitamos deles, objetos afetivos
menos nobres que tendem a nos vincular a necessidades materiais, como os de: ódio, luxúria, avareza, medo, baixa
autoestima.
É
importante nos atentar que a ligação obsessiva pode se iniciar por iniciativa
tanto do outro, como de nós mesmos, até porque ambos apresentam os mesmos
desequilíbrios emocionais marcados em seu perispírito. Esse outro pode ser
tanto um indivíduo encarnado quanto um desencarnado. No entanto, cabe a nós e
não ao outro, a iniciativa de quebrar essa relação ou conduzi-la para uma
ligação que se transforme em frutos positivos.
Essas
relações dolorosas geralmente nos servem para enxergarmos nossas sombras, ou
seja, acessar crenças, valores e comportamentos que queremos desesperadamente
esconder ou que por força de nosso orgulho nem se quer percebemos que estão em
nós.
O
grande primeiro passo é reconhecermos a sombra que se manifesta nas relações
com o obsessor, buscando compreendê-la e redirecioná-la. É importante que
aceitemos a sombra como algo que nos é importante para a evolução, o que pode
ser doloroso, mas, também um grande alívio.
As
reflexões podem nos ajudar a transmutar as sombras. Devemos nos perguntar: o
que há em mim para que na relação com aquela pessoa eu tenha me deixado despertar
esse sentimento? Assim, o que poderia ser inveja, pode se tornar admiração. O
que poderia ser ambição, torna-se significado e assim por diante. Ao ser
compreendida e aceita, a energia da sombra perde sua intensidade e passa a ser
usada para o bem (FORD, 2013). Assim, os obsessores perdem o ponto de conexão
conosco.
O
redirecionamento dessas energias geradas nas relações de dor, podem ser muito
positivas para nosso desenvolvimento, desde que acolhamos as sombras ou
sentimentos menos nobres que nos tem movido, aprendendo o que eles nos têm a
dizer, transformando-os em energia para o crescimento. Quantos casos de pessoas
que passaram enormes dificuldades e se tornaram exemplos de luz?
A
busca pela consolação é o maior dos aprendizados. É o autoconhecimento que gera
autoamor e autoaceitação, consequentemente aceitação e amor aos outros. A
consolação vem da compreensão, mesmo que inconsciente, de que a dor é minha.
Não é algo que o outro me causou, é algo que há em mim, que me faz refletir, me
mover, despertar o autoamor. Para Moreira; Cruz (2013) o amor que resgata a dignidade
humana é uma fonte inesgotável de cura e nos acorda para o fato de que somos importantes simplesmente por
sermos filhos de Deus.
Queremos
mostrar, portanto, que a obsessão é uma forma de relação, como a educação. Ela
nos desperta para as nossas sombras, com o propósito de fazer com que cada um
se ligue consigo. Um indivíduo espelha o outro (obsessor e obsidiado), para que
descubram dentro de si o que precisa ser resolvido, mas que não lhes é
aparente. É a educação pela dor.
Uma
relação dolorosa, de almas ainda em desequilíbrio, que só existe por um
propósito, de nos libertar de nossas sombras. E, deixará de existir quando
precisarmos apenas da educação pelo amor, aquela focada no autoconhecimento.
Portanto, a educação que cura a obsessão é a do autoconhecimento. Ele nos
ensina que devemos ser gratos à essas interações, mesmo que intempestivas,
posto que nada escapa ao plano Divino e tudo que por Ele é permitido tem um
propósito fundamental: o desenvolvimento do espírito humano.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FORD, Debbie. O lado sombrio dos buscadores da luz:
recupere seu poder, criatividade e confiança, e realize os seus sonhos.
Tradução: Rosane Albert. 6ª reimpressão. São Paulo: Cultrix, 2013.
KARDEC, Allan. A
gênese: os milagres e a predições segundo o espiritismo. Tradução de Victor
Tolendal Pacheco; 1ª Ed. São Paulo: LAKE, 1999.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos; Tradução: Guilon
Ribeiro. 2 ed. São José do Rio Preto: Virtue Participações LTDA, 2011a
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritísmo;
Tradução: Guilon Ribeiro. 2 ed. São José do Rio Preto: Virtue Participações
LTDA, 2011b
LAMEIRA, Allan Pablo; GAWRYSZEWSKI, Luiz de Gonzaga;
PEREIRA JR., Antônio. Neurônios espelho. Psicol.
USP, São Paulo , v. 17, n. 4, p. 123-133,
2006 . Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642006000400007&lng=en&nr
m=iso>. access
on 14 Sept. 2015. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65642006000400007.
MOREIRA, Andrey; CRUZ, Dias da (espírito
psicografado). Autoamor e outras
potências da alma. Belo Horizonte: Editora Ame, 2013.
O’CONNOR, Joseph; SEYMOUR, J. Introdução à programação neolinguística: como entender e
influenciar as pessoas. 7 ed. São Paulo: Summus, 1995.
PEREIRA, Yvone do Amaral. Memórias de um Suicida, (ditado pelo espírito de Camilo Cândido
Botelho). Digitalizada por L. Neilmoris. Brasília: Federação Espírita
Brasileira, 2008.
PINHEIRO, Luiz Gonzaga. Obsessão sexual: uma porta para a loucura. 4ª reimpressão.
Capivari, SP: EME, 2013.
SCHUBERT, Suely Caldas. Obsessão e desobsessão. Brasília: Feb, 1982.
[1] Veja um exemplo no Livro A Casa do Escritor, psicografado por Vera Lúcia
Marinzeck de Carvalho;
[2] Segundo Alan Ahlmar, headtrainer de PNL: compaixão poderia ser definida
como o mais profundo rapport, ou, o que ele chamou em 2014, durante o curso de
formação em Advanced Practitioner do INEXH, um Megarapport.
[3] Neil Negrelli, do
INEXH
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