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terça-feira, 6 de agosto de 2013

REENCARNAÇÃO E DESPERTAR: POR UMA CONSCIENCIA DE ETERNIDADE (PARTE I)

Era o ano de 2007, Alma acordou tarde, umas 10 horas da manhã. Estava na casa dos seus pais onde dormia no quarto da frente. Esse cômodo recebia a luz do poste público à noite e, também o sol da manhã. Era o quarto mais iluminado da casa. Nosso protagonista, que tinha tanto medo do escuro, sentia-se confortado por dormir lá.
Ao fundo, ele escutava os hinos da igreja evangélica vizinha, Adventista do Sétimo dia. Lindos cânticos! Muita afinação e volume sóbrio. Era sempre um prazer acordar com aquela alegria aos sábados de louvor a Deus.
Tenho ouvido de uma terra linda, encantada
De um lugar onde a felicidade é total
Os meus olhos já divisam, não tão distante
Meus ouvidos já escutam sons divinais
Tão cansado estou da vida aqui deste lado
E meus braços quase já não podem remar
Calejados e feridos por tantos dias
Querem bálsamo naquele porto encontrar

(Coro)
Além do rio existe um lugar pra mim
Além do rio existe Paz
Além do rio a vida não terá mais fim
Com o meu Jesus irei morar

Tenho já sonhado com aquelas moradas
Que olho algum, aqui não viu, e nunca verá
Tem beleza incapaz de ser comparada
Pois a glória do Senhor presente está
Muito mais bonito que o Sol no poente
Ou a gota d'água em prisma, como cristal
É o encontro de irmãos de fé redimidos
Compensou viver, lutar, vencer afinal!

(Coro)
Além do rio existe um lugar pra mim
Além do rio existe Paz
Além do rio a vida não terá mais fim
Com o meu Jesus irei morar
(Além do Rio - composição Jader Dornele Santos)
A tia paterna de Alma, Rita, e sua filha, Lucilene, estavam na varanda em uma animada conversa com os pais do nosso amigo dorminhoco.
Era uma contenda típica daquelas frequentemente travadas pelos descendentes de europeus, tidos de sangue quente, reunidos naquela família. Emanoel, neto de espanhóis, da região de Múrcia e Célia, filha de uma italiana forte de olho azul, traziam para a criação de Alma e Angela, seus filhos, um misto de cultura europeia e costumes locais.
No diálogo, travado por descendentes dessa cultura, quatro indivíduos são capazes de fazer uma verdadeira algazarra, sentados uns de frente para os outros. Quatro pessoas poderiam estabelecer conversas cruzadas e diferentes, ao mesmo tempo, com muita intensidade sonora. Gritavam mesmo! Sempre com muita ênfase e teimosia; quase dando a entender, aos desavisados, que se tratava de uma briga, dado ao calor dos argumentos.
Apesar de gostar de falar muito, Alma sempre foi de falar baixo e evitar qualquer embate. Ainda deitado na cama, pensou:
- Eu não devo pertencer a esta família. Acho que reencarnei aqui por acaso ou talvez seja adotivo, como minha irmã.
Antes mesmo de conseguir concluir esse raciocínio, foi tomado por outro pensamento, muito forte. Sem entender do que se tratava aquilo, pensou em terceira pessoa, uma sensação que parecia mais um pequeno choque elétrico que lhe tomava a consciência:
- Você é a vó Carmem.
Alma achou estranho aquilo, depois entendeu que foi a mensagem mediúnica mais clara que lhe havia sido emitida, até então.
A vó Carmen havia desencarnado dezessete anos antes do nascimento dele, justamente no ano em que os pais de Alma casaram-se. Precisamente, ela desencarnou na mesma semana do casamento dos pais de Alma. Ele nunca a conheceu. Além disso, ele pouco sabia dela, com exceção de uma pequena foto que ficava exposta na estante da sala, em um porta-retratos minúsculo.
Por essa foto, Alma sempre se mostrou interessado. Sabia que a avó havia desencarnado com problemas neurológicos, parecidos com sintomas de esquizofrenia. Era trabalhadora incansável, portadora de um coração imenso e caridoso, uma mediunidade desequilibrada e forte magnetismo. Além disso, pouco se falava sobre ela.
Ao levantar, ainda meio descabelado e com os olhos um pouco inchados devido à insônia que o havia atormentado durante a maior parte da noite, Alma foi ter com seus familiares na varanda.
Sentou-se em uma das cadeiras de fio, que estavam dispostas de modo a poderem tomar um banho de sol, enquanto avistavam o tanque de lavar roupas ao lado, onde a mãe de Alma colocava algumas mudas de roupa em molho.
O quintal, cheio de árvores, ora os reverenciava com uma sombra refrescante ora com o sol acolhedor, devido à brisa leve que soprava e abanava as folhas dos coqueiros e do ipê florido.
Ao fundo, ainda ouviam o som das canções harmônicas do coral Adventista, que na igreja vizinha, faziam louvores ao Pai Celestial.
O papo, que corria mais calmo considerando o clima de acolhida que a música evangélica gerava, rumou para as experiências da tia Rita e da prima, na reunião mediúnica do Centro Espírita que frequentavam no Estado do Paraná.
A prima Lucilene disse à mãe de Alma: 
- Ai tia, estivemos no Centro Espírita semana passada e o vô Antônio nos deixou uma linda mensagem. Ao terminar, ele disse: - um beijo e um abraço para a minha filha e a minha neta que estão aqui.
Emanoel ficou bem emocionado, ao ouvir que o pai dele estava tão bem e tinha uma missão tão importante no plano espiritual. Apesar dele e Célia serem católicos, nunca desacreditaram nas mensagens dos irmãos queridos, desencarnados.
Alma, que ouvia tudo calado, bastante incomodado, completou:
-Vocês falaram do vô, falaram do tio, que de vez em quando aparecem para deixar mensagens. Mas, nunca falam da vó. E a vó Carmen? Ela não vem ao Centro? Será que já reencarnou?
Então, por incrível que pareça, toda a espanholada ficou em silêncio. Milagre! A prima, olhando para a tia, recebeu uma assertiva com a cabeça, representando a confirmação de que poderia falar sobre esse assunto que parecia tão delicado. Era estranho todo esse silêncio ao redor da história da avó paterna.
Olhando no fundo dos olhos de Alma, com um imenso sorriso no rosto, parecendo banhada por uma luz de ternura e afeto, a prima falou:
- Nós achamos que a vó Carmen é você.
Ao mesmo tempo em que era tomado de uma imensa angústia e sufocamento, pelo choro que parecia não hesitar em vir, Alma ouviu sua mãe acrescentar:
-Você é mesmo muito parecido com a vó: calmo, quieto.
Tia Rita, com outro mais belo sorriso, falando enquanto ria, expressando toda sua terna simpatia naqueles verdes olhos que brilhavam, explicou:
-Olha, ninguém veio dizer não. Mas eu não tenho dúvidas.
-Três anos depois de seus pais adotarem sua irmã, quando faziam dezessete anos de casados, se conformaram que não teriam outro filho. No entanto, em uma destas noites de sono agitado, vi a minha mãe, que já tinha morrido, dizendo:
-Já terminei, aqui em Londrina, com vocês meninas. Agora vou ficar com seus irmãos, lá no oeste. Vou acompanhar um cavalo e despertarei com os meninos.
Suspirando, como se visse a imagem da mãe que tanto amava e que tão cedo a deixara, ainda na adolescência, tia Rita terminou:
- No dia seguinte ao sonho sua mãe ligou com uma bela notícia que nos encantou o coração. Ela anunciou a sua chegada; um filho tão esperado, que regressara a casa do mano (apelido dado a Emanoel) o caçula dos meninos.
Não aguentando mais manter a cara de paisagem que havia aprendido nas pesquisas com entrevistas, Alma saiu, sufocado pelo orgulho e pela dúvida. Lembrou-se da mensagem que havia recebido há poucos minutos. Trancou-se no banheiro onde tomou um dos banhos mais confusos da sua vida.
Chorou copiosamente e despertou uma curiosidade esfomeada sobre a espiritualidade até ali abafada pela explicação materialista que tinha construído na academia, bem como pela exclusão que sentira, dentro da igreja católica, diante da consciência de sua sexualidade diferente.
Será que recebia uma revelação sobre a sua última encarnação? Ou aquilo tudo seria apenas um enorme acaso, uma coincidência?
Pensando e chorando, Alma encontrava a calma. Um ritual que, embora inconsciente, nada mais era que um belo ato de oração. Um diálogo com o Cristo que existia no coração daquele rapaz. Mediado pela tranquilidade da água morna que lhe auxiliava a concentração.
-Na Bíblia, diversas passagens atestam pela possibilidade da reencarnação. Por exemplo, quando Jesus dizia: “-Na casa do meu Pai há muitas moradas. Ou, para alcançar o reino dos céus tens que nascer de novo”.
-Não estaria Jesus falando dos diferentes planos espirituais e planetas habitados por espíritos de diferentes necessidades e níveis de desenvolvimento? Como poderíamos nascer de novo, se não fosse pela luz da nova oportunidade do espírito encontrar um novo corpo?
-A ciência mostra que uma vez decomposto, o organismo tem seus átomos distribuídos novamente na constituição de outros seres materiais. É impossível que a ressurreição, como classicamente seja pensada, realmente acontecesse. Não dá para voltar com o mesmo corpo.
-A explicação mais lógica é que ao nascer de novo, nascemos em um novo corpo, para aprendermos sob um novo ponto de vista, ocupando uma posição que nos amplie os horizontes sobre as relações de afeto que devemos construir como filhos de Deus.
-Talvez, a passagem mais importante dessa condição seja a clara revelação de que João Batista era a reencarnação de Elias. 
Esbaforido, Alma se enrola na toalha e corre ao quarto, procurando a bíblia que sua mãe sempre deixava no criado mudo, ao lado da cabeceira da cama. Então leu:
Seus discípulos então o interrogaram desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” – Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o conheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o Filho do Homem”. – Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que ele falara. (S. Mateus, 17:10 a 13; S. Marcos, 9:11 a 13) .
Alma, metido à cientista cético, fazendo mestrado, reconheceu o óbvio. A reencarnação era um fato claramente apresentado no evangelho. O próprio Jesus teria apontado que João Batista era a reencarnação de Elias. Um último choro lhe trouxe a paz que precisava. Era sim, uma retomada à religiosidade a partir de uma fé raciocinada, baseada em vozes do seu cotidiano. Deus falava através daquelas pessoas. As falas dos familiares não poderiam ser mera coincidência, quando relacionadas à intuição que lhe ocorrera. Naquele dia, sua fé voltava aquecer lhe o peito.
No entanto, algo ainda o intrigava. Por que voltar justamente naquela mesma família? Por que Emanoel teria sido filho e agora era seu pai?

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